quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

PRESENTES

Enquanto fazia uma caminhada no final do dia ouvi duas mulheres conversando. E algo que consegui perceber foi uma certa preocupação por ainda não terem comprado os presentes de Natal. Senti que o comentário sobre esse esquecimento foi sincero e até mesmo carregado por ansiedade. Realmente estavam preocupadas.

Coincidentemente, este tipo de angústia aumenta na mesma proporção que aumentam os comentários sobre uma certa diminuição do encanto dessa data. Neste sentido, sim, creio que deveria haver uma certa preocupação. Afinal, como todos os anos somos lembrados, o que realmente importa são as confraternizações. A união. O respeito. O que importa é a sinceridade nos relacionamentos entre as pessoas. Na medida em que os anos passam, parece que mais acelerada a vida fica e menos tempo para um olhar interior sobra. Mais aceleradas ficam as nossas interações. E parece que queremos compensar estes afastamentos com presentes. Pode até ser mais fácil passar o cartão de crédito para comprar um produto e depois entrega-lo para alguém. O problema é que muitos não vão além deste gesto.

Por isso que não devemos nos preocupar com as tais compras de Natal. Claro que é sempre divertido dar e também receber alguma lembrança. Só não podemos ficar focados apenas nestas objetividades. Não precisa ser motivo de preocupação. Todos sabemos que há muitos outros motivos para nos preocuparmos, no entanto, muitas vezes são esses verdadeiros motivos que evitamos.

Por sorte esse tipo de posicionamento egoísta não é a maioria – ao menos assim tento acreditar -, e diversas pessoas e entidades costumam se unir para ajudar aqueles que não têm tempo para se preocuparem com compras de Natal. Inclusive, são tipos de ajuda que acontecem durante o ano inteiro.

Se ainda não comprou algum presente, ainda dá tempo. Só não torne isso uma preocupação.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

LIÇÕES

Caminhões com dezenas de caixões com corpos de jovens com idade entre 20 e 30 anos circulando pelas ruas de uma cidade em um dia de muita chuva. A cena bem que poderia ter sido tirada de um filme, mas infelizmente aconteceu de verdade. E ficará eternizada nas memórias de todos.

Também ficará na memória de todo o mundo a lição de humanidade do povo colombiano. O afeto, a união e a consciência de que somos todos iguais. Uma verdadeira aula de como o ser humano deve se comportar. Assim como também aconteceu na Arena Condá. Assim como deveria acontecer em todo o lugar, sem distinção. Não há dúvidas de que, se atitudes como as que assistimos após a tragédia com o avião da Chapecoense fossem constantes, teríamos uma sociedade muito mais justa e equilibrada. Uma sociedade onde o respeito não seria algo que precisaria ser lembrado a cada instante.

Apesar de ser a única certeza que temos a morte sempre irá desestabilizar qualquer um. Sempre será dolorosa. Sempre será temida. Sempre será inaceitável. Ainda mais quando chegada de maneira tão absurda e injusta. Quanto mais as explicações são buscadas, mais angustiante se torna, nos restando apenas compreendermos o quanto somos seres vulneráveis. E, desta compreensão, buscar estar presente no mundo de maneira mais imersiva e contemplativa, abrindo mão de certas superficialidades que costumam levar pessoas para um estado de inércia e individualismo.

Exemplos de como ser menos individualista e aprender a trabalhar de maneira coletiva, foram os próprios jogadores da Chape. Cito, aliás, o zagueiro do time, o gravataiense Filipe Machado, com o qual estudei no Colégo Dom Feliciano, ainda lá no Ensino Médio – na época chamado de “Segundo Grau”. Apesar de não termos tido mais contato, ao ver a sua imagem no noticiário sobre o acidente, fiquei bastante chocado e instantaneamente me veio à lembrança ele sempre disposto e interagindo com o restante do time de futebol de salão do colégio, a qual sempre se destacou, e, como resultado, conseguiu se profissionalizar anos depois. Graças à dedicação, vontade e humildade. Espero que essas lições também fiquem eternizadas em nossas memórias.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

É PRECISO APERTAR O OFF

O Papai Noel já está pendurado nas vitrines de algumas lojas, supermercados e na casa das pessoas. Desde os mais simples até do tamanho de seres humanos. Alguns são seres humanos - para o divertimento de algumas crianças. O fato é que amanhã faltará um mês para o Natal. Logo, um mês para as mensagens bonitas sobre o verdadeiro espírito natalino, que estamos carecas de saber, mas não de colocar em prática.

Mas a reflexão que faço com a proximidade do Natal, não tem muito a ver com a data em si, mas com a passagem rápida do ano. Todos se espantam que o ano “passou voando”. Comentam que cada vez está mais rápido. Assim como comentam que cada Natal vem perdendo a graça. É só comentar sobre o 25 de dezembro durante o cafezinho que alguém vai dizer isso acompanhado de um olhar vazio para a xícara de café.

Se existe essa tal falta de graça em ralação a certo desprendimento das pessoas em relação ao Natal, da mesma forma que uma sensação de rapidez nas passagens dos anos, talvez nós tenhamos um pouco de culpa nisto, ao não nos permitirmos desviar um pouco a atenção para o que realmente gostamos, dispondo de mais tempo para nós mesmos e valorizando um pouco mais o contato pessoal ao virtual. Afinal, coincidentemente, na medida em que aumentam esse tipo de percepção sobre a aceleração do tempo, também aumentam o uso das redes sociais. São praticamente mais horas gastas online do que off-line.

Ainda dá tempo para buscar a tal “graça” do Natal e parar de pensar que o ano passou rápido demais. Nestes últimos dias do ano, busque se reunir mais com os amigos, visitar parentes. Enfim, buscar de alguma forma um contato físico com seres humanos, antes que esqueçamos o que isso signifique.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ESSA BESTEIRA DE AR

A poluição atmosférica causa mais de 3 milhões de mortes no mundo, a cada ano; 92% da população do planeta vive em áreas com níveis de poluição superiores aos estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS); Em 2013, ocorreram 62 mil mortes no Brasil causadas pela poluição. Estes são alguns dados apresentados pelo Relatório da Organização Mundial da Saúde. E os números vão além, deixando a problema muito mais sério. Quase tão sério quanto o desinteresse pelo assunto por parte não apenas de governos, mas pela própria população em geral.

Há quem leia isto e pense que é mais do mesmo. Afinal, é comum ler ou ouvir discursos sobre a qualidade do ar que nós respiramos e suas consequências para a saúde. É comum, fala-se bastante, mas continua sendo um tema que por incrível que pareça não nos atinge. Pelo contrário, tenho a impressão de que quanto mais abordado o assunto seja, mais ainda as pessoas fazem o contrário, como crianças fazendo birra.

O pior de tudo é que esse descaso com o meio ambiente não pode ser justificado como falta de conhecimento. Há pessoas muito bem instruídas, esclarecidas, que simplesmente se fazem de despercebidas, e costumam falar que tudo isso não passa de besteira. Sinceramente, seria bom se fosse. Seria bom que toda essa conversa sobre poluição do ar, sobre o uso exagerado de carros fosse apenas um monte de bobagens sem sentido, e que o ar que respiramos nas grandes cidades não fosse capaz de causar danos a longo prazo, como já foi comprovado em relação a doenças pulmonares e até câncer.

Me lembrei de tocar neste tema – talvez me repetindo -, após de ler uma ótima matéria na revista Trip sobre o ar, e depois que um conhecido me viu andando de bicicleta. Ele estava de moto, parou para me cumprimentar e perguntou o que eu queria pedalando. Como se eu estivesse indo contra algum tipo de evolução social do indivíduo, já que ao invés de estar andando em um carro novo – afinal, está “na hora” de eu trocar o meu, me dizem -, eu estava em uma humilde bicicleta.

Mas para que falar de “besteira”, não é mesmo?

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

SERES HUMANINHOS

Em outubro visitei uma creche municipal para realizar uma ação de Dia das Crianças junto com mais outras pessoas. Doamos dezenas de brinquedos que arrecadamos. Não levo muito jeito para interagir com os pequenos. Fico intimidado. Sim, é ridículo uma marmanjo se sentir acuado por um inocente serhumaninho de 50 cm. Mas fico. Deve ser porque, no fundo, quanto mais velhos vamos ficando, mais vamos temendo a sinceridade. E isso é o que os eles têm de sobra. O que devemos admirar, pois é uma virtude que está se tornando cada vez mais rara nas pessoas mais crescidinhas. Virtude que sempre foi menor, mas a situação está ficando cada vez mais crítica entre nós adultos-maduros-que-sabem-de-tudo.

Então começamos a distribuir aqueles brinquedos para a criançada. Os olhos brilhavam. Os sorrisos banguelas iam nas orelhas. Os gritos agudos em completa desafinação soavam tão bom quanto qualquer música. Era a sinceridade de expressar uma emoção. E criança é assim. Se está feliz, grita, ri, corre. Não escondem suas emoções com medo do que os outros irão pensar. É puro. E a sensação de presenciar essa pureza traz certa tranquilidade. É uma aula.

Em poucos minutos, elas já saíram da nossa volta e se misturaram pelo quintal de terra correndo com seus brinquedos. Fomos abandonados. E nem eram super brinquedos. Eram carrinhos, bonecas, alguns doces. Mas elas estavam encantadas e, principalmente, interagindo entre si. Isso foi muito bom de ver. Porque assim como a sinceridade vai ser tornando coisa rara, a interação entre as pessoas também começa a se diluir. E o pior, cada vez mais cedo. É comum vermos crianças trancadas nos quartos com computadores, celulares, exercendo pouca atividade social. Sendo que este tipo de atividade é de importância extrema para o desenvolvimento de um ser humano. A vida vai passar, alegrias e tristezas virão. E com elas é preciso saber conviver.

Mesmo não sendo mais crianças, ainda podemos resgatar um pouco de comportamento mais humano, sincero e espontâneo. É só olhar nos olhos delas, mesmo que você não leve jeito. Com certeza elas não vão se importar.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE

O que mais temos na vida são incertezas. E justamente a única coisa que sabemos que irá acontecer, a todos, é o que nos assusta. Para alguns assusta mais. Para outros nem tanto. Mas o certo é que a morte ainda é um assunto delicado de lidar. Por mais que nos preparemos, sabendo que ela chegará, queremos adiar esse encontro o máximo possível. No entanto, é questão de tempo para que todos tenhamos o mesmo destino. Rico ou pobre. Feio ou bonito. Bom o mau. Vegetarianos e carnívoros. Coxinhas e petralhas. Todos, sem distinção, irão para o mesmo lugar. Só não sei qual lugar.

A morte me tocou – digo, me inspirou -, por ontem ter sido Dia de Finados, e eu ter perdido um parente há exatamente uma semana. E quando vemos de perto o rosto sem expressão de uma pessoa que nos deixou contrastando com rostos com muita expressão chorando às voltas, buscando um apoio para aguentar a pancada, percebemos o quanto somos insignificantes. E, principalmente, o quanto somos orgulhosos. Em diferentes níveis. Mas todos temos um pingo de orgulho. Acreditamos não precisar de ninguém, mas a verdade é que precisamos. E precisamos sempre.

Você vai morrer. Seus pais irão morrer. Sua namorada. Seus filhos. A ordem nem sempre é lógica, mas não se pode negar o fato, como se falar na morte fosse atrai-la. É preciso falar. Talvez quanto mais o assunto deixar de ser evitado, mais conseguiremos compreender o um pouco dos motivos de estarmos aqui. E descobrindo, quem sabe não passamos a avaliar melhor nossas atitudes. A valorizar mais as outras pessoas. A prestar mais atenção em tudo a nossa volta, e não apenas no que está diante de nossos olhos, ou apenas nas telas em nossas mãos.

Tudo isso pode parecer mera teoria. De fato é. Mas vale como um ponto de partida para olharmos no espelho e se perguntar o quanto da vida estamos desperdiçando com coisas insignificantes.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

GUARDE DEPOIS DE USAR

Quanto mais velho melhor. Aliás, velho não. Antigo. Ou ainda, vintage. Retrô também. Enfim, quanto mais idade tiver o objeto, mais descolado e valorizado ele será. Este movimento em torno de artefatos que foram tendência em outras épocas está cada vez mais forte. O que eu acho uma maneira muito interessante de se valorizar costumes e culturas de um período em que nós não tivemos oportunidade de vivenciar.

Sou um apreciador voraz dessa onda que resgata as antiguidades e traz para nosso contexto contemporâneo, abarrotado de virtualismo, oportunidades de conhecermos o que nossos pais e avós tinham em termos de diversão, moda ou mobilidade. Não que eu seja um saudosista. Apenas acho interessante essa volta no tempo. Poder compreender o quanto, hoje, temos facilidade extrema em conectar pessoas, em se deslocar, em se divertir. Em paquerar. Fico imaginando a cara da minha falecida avó se eu explicasse para ela o que é o Tinder. Provavelmente eu seria obrigado a visitar alguma benzedeira, por estar envolvido com coisas do capeta.

O interessante é que muitas dessas ofertas de produtos retrôs são mais caras do que eram em sua época. Até entendo quando se compra um produto original, fabricado há décadas atrás. Mas, para mim, perde o encanto quando as empresas, antenadas às tendências de consumo, criam novos produtos apenas com a aparência de antigo. Aí não vale. Mesmo assim, comprei um toca-discos novo, e com aparência de velho. Até entrada para USB tem. Até hoje me pergunto o motivo de uma entrada USB, se eu paguei caro por um aparelho justamente para tocar discos de vinis. De qualquer forma, mesmo o equipamento sendo novo, o ritual de colocar o disco sob a agulha consegue resgatar um pouco uma aconchegante nostalgia.

Pensando nisso, resolvi que não descartarei mais nada das minhas coisas, digamos modernas. Tenho guardado um videocassete, um DVD Player, um monitor de computador CRT (aqueles com um tubo atrás) e um Discman. Em alguns anos espero conseguir alguma grana com eles. Talvez com o videocassete. Se bem que, até chegar esse dia nosso próprio dinheiro será peça rara.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

O que mais ouço as pessoas dizerem é que não há mais tempo para nada. Dizem que o dia deveria ter umas 33 horas. Dizem isso porque não conseguem concluir o curso de línguas, mais as duas faculdades, mais fazer horas extras toda semana. Reclamam que não sobra tempo nem para ir ao parque. Se bem que, assim evitam um eventual assassinato em plena luz do dia. De qualquer forma, existe uma espécie de, digamos autopressionamento que está transformando as pessoas.

É caótico e assustador. Muitos se cobram o tempo todo e nem sabem ao certo se é aquilo mesmo que querem. Mas se cobram. Conheço um amigo que possui um emprego que detesta. Anda sempre estressado. Dia desses até recusou o convite para um chopp. A coisa estava séria. Mas não pensava em trocar de emprego. Afinal, apesar de ele não gostar, era um cargo que expressava certo status. A verdade é que muitos dos conhecidos realmente se comoviam com isso. Só que este amigo sofria quieto.

E assim existem muitos que se desgastam querendo se posicionar diante dos outros. Ok. É legal ser comprometido. Demonstrar empenho. Mas também é legal olhar para si e se perguntar até que ponto tal desespero irá trazer felicidade real. Claro que não significa que tenhamos que simplesmente pendurar a rede embaixo de um pé de bergamota e ficar de pés descansos ouvindo os pássaros o resto da vida. Apenas é preciso saber dar um passo de cada vez. Respeitar o seu ritmo. Respeitar os desejos. E, principalmente, respeitar os valores. Ou seja, o que realmente nós entendemos como algo importante para o nosso desenvolvimento pessoal e intelectual. Quando conseguimos equilibrar de maneira sensata nossas vontades, é possível perceber que o tempo não está curto não. Só não há necessidade de querer tudo ao mesmo tempo e agora. 

Planejamento. Essa palavra parece coisa de gente pragmática demais. Eu também pensava isso. Mas com ela em mente é possível trilhar pelo caminho que queremos. Conquistar o que desejamos. E, também, agradar quem gostamos. Mesmo com o dia tendo apenas 24h.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

IRRACIONALIZANDO

Há quem diga que os animais convivem melhor entre si do que os seremos humanos. Que, mesmo agindo apenas por instinto, ainda conseguem expressar comportamentos de respeito e lealdade, como se fossem racionais. Características que dizem estar se tornando extintas no homem, que cada vez mais busca vantagens sobre os outros. Que cada vez mais inveja os outros. Dizem. Mas creio que tal linha de pensamento não seja mera especulação, mas sim, uma triste constatação de tempos individualistas onde vale olhar apenas para si próprio.

O fato é que tais comportamentos mesquinhos sempre existiram. A questão é que aos poucos eles vêm aumentando. O problema é isso deixar de ser apenas um desvio de personalidade de determinados grupos de pessoas e passar a se tornar um comportamento natural dos seres humanos. Mas não podemos ser catastróficos. O respeito e a confiança ainda existem em muitas pessoas. Talvez até na maioria, por isso temos que estar atentos e saber separar o joio do trigo.

Pensando nisso tudo, nessa comparação entre homens e animais, nessa falta de segurança e posicionamento de muita gente, na falta de criatividade e autoconhecimento, começo a acreditar que muitos até querem se tornar irracionais. Pense bem. Se você for um ser irracional, poderá agir como um homem das cavernas. Poderá dizer que não sabia que determinada ação era errada. Poderá, literalmente, se fazer de louco, como dizemos quando alguém se faz de desentendido. Até imaginei, agora, uma bando de Neandertais caminhando pela cidade. Só que nós não somos eles. Somos seremos inteligentes, e, quando agimos como se não tivéssemos inteligência, acabamos nos colocando em um nível menor do que nossos ancestrais. Pois estamos exercendo a nossa capacidade intelectual para parecer que não temos tal capacidade. É como um gênio querer forçar para parecer um ignorante. Vai entender.

Diariamente são postados vídeos de animaizinhos nas redes sociais. Espécies distintas interagindo entre si. Realizando comportamentos de afetos. Mães cuidando de filhotes. São inúmeras peripécias animalescas. Já ouvi de alguns que isso tudo não passa de besteira. Que é perca de tempo de quem se dá ao trabalho de publicar e de quem assiste. Confesso que eu mesmo já pensei isso. Porém, depois de deixar o mau humor de lado, pude perceber que não se trata apenas de vídeos engraçadinhos. Mas sim, uma maneira subliminar de nos ensinar a reaprender a viver em comunidade.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O RECADO DO ANIVERSARIANTE

No último dia 26, Luis Fernando Veríssimo completou 80 anos. Com dezenas de personagens e histórias imortalizados em nossas memórias, nos apresentando de maneira bem humorada as trivialidades do nosso cotidiano. Em suas crônicas nos deparamos com os mais variados temas, porém, de uma maneira menos densa do que encontramos em outras leituras. Isso porque ele é uma pessoa que reconhece que não vivemos em um dos melhores países do mundo, mas que também não precisamos nos atirar ao fundo de um poço de lamentações sem fundo.

Lembro do aniversário dele, e da forma leve de seus textos, devido a sua própria personalidade. Introspectivo, de poucas palavras faladas, discreto, o criador do Analista de Bagé sempre foi uma pessoa de maneira contida, mas nem por isso desatento e por dentro do que acontece a nossa volta. Só que, provavelmente, ele não ache necessário sair demonstrando desesperos para todos os lados. Não que não podemos nos desesperar com problemas, mas é preciso que saibamos administrar esses desesperos. Assim como nossos medos e aflições. Se deixarmos que eles nos dominem, aí a situação só fica ainda mais desesperadora. É fato.

Até entendo muitas pessoas constantemente estarem de caras amarradas. No fundo elas querem demonstrar que estão descontentes e ficam emburradas se tornando até hostis com seus amigos. Como se esta hostilidade fosse melhorar algo. Não é demonstração de raiva que vai melhorar as coisas. Aliás, vai piorar, talvez até se consiga uma úlcera de companhia. 

Portanto, precisamos aprender a tomar o controle de nossos conflitos internos e externos de modo a convivermos melhor tanto com os outros como com nossas próprias inquientações. E como recomendação para se começar a pôr em prática esse aprendizado, talvez uma dose diária do nosso octogenário Luis Fernando Veríssimo ajude. Além de ajudar, ainda será uma boa fonte de prazer aliada ao conhecimento. Mas quem ainda preferir uma úlcera, tem toda a liberdade de escolha.

ESTAÇÃO DA INTERAÇÃO

Cada período do ano tem suas peculiaridades. Principalmente aqui no Rio Grande do Sul, onde passamos de um extremo ao outro. Mas, creio que o período preferido da grande maioria das pessoas seja a primavera, que hoje se inicia. É caminhar pelas ruas para perceber que até o semblante das pessoas parecem se alterar. Portanto, um momento propício para motivações, criatividade e interações.

Principalmente interações, já que, ao mesmo tempo em que vivemos constantemente conectados, também parece haver um distanciamento entre cada um de nós. Não apenas distanciamento, mas também um bocado de individualismo que poderia ser deixado mais de lado. E, ao contrário da introspecção do inverno, onde ficamos com as casas fechadas, encolhidos dentro de quilos de roupas das quais mal podemos nos movimentar, a primavera é uma facilitadora de um comportamento oposto. E vamos adotar esse comportamento. Não gostamos de inspirar uns aos outros, muitas vezes até imitar? Pois imitemos um posicionamento onde sorrisos prevaleçam.

Na primavera, os sabiás cantam antes do sol nascer, e como tenho sono leve, acordo. Mas o engraçado é que não fico bravo. Pelo contrário, presto atenção na cantoria e na demonstração de interação deles. Aquela interação que precisamos buscar uns nos outros. E com ela uma convivência mais harmoniosa.

Entendo que na teoria pode parecer fácil, que muitos rabugentos de plantão dirão que a vida não é um mar de rosas e que as contas não param de chegar durante a primavera, nem as instituições financeiras reduzem os juros nesta estação, buscando uma interação de paz e amor com seus clientes. Entendo mesmo. Porém, pode não ser um mar de rosas, mas o fato de se estar desfrutando da vida já é um motivo para comemorar. E não podemos desperdiçar este tempo. 

Costumo sempre reforçar que é preciso tentar sempre buscar um ponto de equilíbrio em tudo. Se isso é mera teoria não importa. Mas vale lembrar que muito do que temos hoje foi construído com base em teorias, que se não fossem aceitas, por causa de críticos, estariam fadadas ao fracasso. Portanto, vamos tentar reclamar menos e interagir mais, nem que seja até o próximo inverno.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O VALOR NÃO TEM PREÇO

Preço é diferente de valor. Podemos pagar algo com uma alta quantia de dinheiro, mas não nos satisfazermos, não nos sentirmos satisfeitos com nosso desejo. Assim como podemos adquirir alguma coisa por um baixo preço, mas que nos encante e nos faça sentir envolvidos por aquela aquisição.

Pensei nisso quando estava em uma feira de vinil. E nada melhor que passear entre diversos discos de vinil – mesmo eu sendo da geração da fita K7 -. Uma feira para os amantes de música poder compartilhar seus gostos e raridades com outros que também valorizam o prazer de escutar sua música predileta tocada através de uma agulha. O chiado acompanha a cadência que embala a dança. Mesmo que essa dança seja apenas imaginária. Sem nenhum par. Ao menos ela tem valor para quem estiver a imaginando.

Esse mesmo valor deve ser buscado por todos. O que significa dar mais atenção para o que apreciamos. Pois se apreciamos, é porque valorizamos. E, se valorizamos, devemos dar atenção e aproveitar ao máximo o que está diante de nós. Em muitos casos são pequenos fragmentos. Tudo bem que não sei que fragmentos são esses. Mas com certeza cada um de nós os possui, e muitas vezes os deixa passar em branco por acreditar que seria mais interessante levar em conta situações que na verdade são meras superficialidades.

É preciso que aprendamos a diferenciar a superficialidade, o preço, daquilo que é valor. Daquilo que nos faz dançar sozinhos no meio da sala em plena tarde. Ou vai dizer que nunca fez isso? Se nunca fez, faça. Então entenderá a diferença do preço e do valor. Parece uma pequena diferença, mas é o que nos ajuda a entender melhor nossa posição dentro de uma infinidade de posicionamentos que, ao invés de ajudar, acabam confundindo ainda mais a opinião de quem está aprendendo sobre comprar e sobre valorizar.

Valorize mais, absorva mais, sorria mais. Será mais barato e ao mesmo tempo muito mais rico.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

ESPELHOS

Quando falam em mal do século, sempre me pergunto como se definir qual dos males pode ser escolhido como o que merece destaque na listinha de coisas ruins de um século. E ainda não encontrei a resposta, foi mais fácil apenas indicar um mal para concorrer ao prêmio. E o que eu escolhi é a mania que muitas pessoas têm de medirem suas felicidades se espelhando em outros indivíduos. 

O mais confuso é que, ao mesmo tempo em que encontramos mais pessoas medindo suas alegrias e tristezas através dos outros, também encontramos um maior número de pessoas que sentem orgulho em dizer que são seguras de si. Que seguem suas próprias felicidades sem necessidade de olhar para os lados. Vemos então que a conta não bate. Já que não passa um dia se quer sem ouvirmos ou vermos alguém moldando seu comportamento para poder se encaixar em determinada situação. E assim vão construindo uma falsa felicidade, que na verdade não passa realmente de uma moldura apenas. Já o conteúdo, muitas vezes, não é autêntico. É morno, como o plágio de uma música. Neste caso, nem diria morno, mas frio mesmo. Gelado.

Nesses tempos efêmeros – e também excêntricos -, é até aceitável que tomemos decisões baseadas nas opiniões alheias, que busquemos a felicidade no reflexo do outro, já que tudo passa e nem temos tempo de assimilar. Quando viu, já foi. Quando foi, ficamos. E quando ficamos já nem sabemos onde estamos. Sim, é uma loucura. Só não podemos exagerar neste apoio social, digamos assim, e esquecermos que nossa felicidade depende de nós. Que não podemos viver se comparando com o colega, o vizinho, ou alguma celebridade. Que bom que somos todos diferentes, e são essas diferenças que são capazes de formar uma sinergia na qual todos se complementam e ajudam a roda girar, mesmo que de maneira meio lenta de vez em quando. Mas gira. E, desde que consigamos manter essa roda em linha reta, já estaremos no lucro. Mas, para isso, é preciso que deixemos de usar os outros como nossos espelhos.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

APRENDA A VOLTAR

Era um dia bonito. Fazia sol. Nem calor, nem frio. Era um prenúncio da primavera, com um leve perfume de flores no ar, mesmo faltando um mês para a estação mais aguardada. Creio que seja a mais aguardada, já que não congelamos de frio nem derretemos sob o sol. Mas então era um desses dias. Precisamente um domingo. Estávamos em um grupo de amigos praticando o Nadismo quando percebemos que um integrante estava meio para baixo. Ao ser questionado, a pessoa disse que estava com uma “deprê de domingo”.

Alguns acharam engraçado e concordaram. Não que o dia estava depressivo, mas que o domingo, às vezes, pode levar a isso. Alguns não deram ouvidos e seguiram deitados na grama aguardando o fim do dia. No meu caso, me surpreendi comigo mesmo ao discordar, pois também sempre coloquei o dia de domingo na lista negra. Por sorte, eu o tirei dessa lista há algum tempo.

Primeiro porque é apenas o nome de um dia, apesar de parecer que há um “clima diferente” no ar, como dizem alguns. Mas o relógio anda na mesma velocidade. O sol nasce e se põe como nos demais dias.  Segundo porque é um dia que podemos ficar um pouco distante dos compromissos. Descansar. Falar besteira ou assistir a um filme sem prestar atenção nele.

Mas entendo essa sensação, digamos melancólica, que nos atinge vez ou outra. Afinal, sabemos que no dia seguinte voltaremos à rotina, que voltaremos a cumprir horário pontualmente, que voltaremos a embarcar no ônibus lotado ou enfrentar engarrafamento com o carro. Enfim, voltaremos. Porém, cuidado, isso significa que o domingo não é o gatilho de uma angústia, mas sim, o ato de voltar. Se for isso mesmo, significa que o problema está nas suas escolhas. E talvez ainda dê tempo para revê-las, para evitar que, lá na frente, uma falsa sensação de depressão não vire mesmo um quadro real do problema. E um bom domingo a todos, apesar de hoje ser quinta.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

E SE...

Dúvidas. Dúvidas. E mais dúvidas. Quanto mais o tempo avança, mais aumentam as dúvidas. São diferentes tipos de opções para tudo. Do creme dental ao sabor do churros. Sim, pois agora existem churros gourmet, com opções até salgadas. Churros salgados. Salgados. E assim vamos enchendo nossas cabeças de indecisões que ficam cada vez mais complexas e com cada vez maior capacidade de nos fazer pensar se escolhemos o certo. Como se houvesse uma certeza sobre o certo e o errado. Existem apenas escolhas. Mas muitos ficam se perguntando como seria se tivesse feito uma opção diferente.

E se... eu tivesse aceitado aquela oportunidade de emprego? E se... eu tivesse largado aquele emprego para fazer aquela viagem para a Austrália? E se... eu tivesse economizado 10% do meu salário desde o primeiro emprego? E se... eu tivesse escolhido o churros salgado? Ouço amigos falando “e se...” toda vez que os vejo. Tem pessoas que falam mais essa expressão do que um “bom-dia”. O que pode ser apenas um gatilho para angustias sem sentido.

Quanto menos nos questionarmos sobre como seria se tivéssemos feito determinada opção, mais leve levaremos nossas vidas. E é disso que precisamos. Leveza. E não de ansiedade. Se determinada escolha foi feita, foi porque no fundo era aquilo que você achou que era melhor naquele momento. O momento. Pensemos mais no momento, por favor. E, convenhamos, nada mais chato do que uma pessoa que fica lamentando em nossa volta, se arrependendo de tudo. Como se ela fosse dona de todos os problemas do mundo, e os outros vivessem em um mar de rosas. 

Claro que, em determinados momentos é necessário fazermos reflexões mais aprofundadas antes de certas escolhas. Nem todas as coisas são tão simples. Apenas não precisamos deixar ainda mais complicadas. De complicado já basta decidir em comer ou não um alimento que a vida inteira foi doce, e, agora, tem sua versão salgada.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O PAPEL DO PAPEL

Alguns dizem que é saudosismos. Outros dizem até mesmo ser mania. Um Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) – se bem que, em certa medida pode até ser. O que importa é que eu gosto de sentir o cheiro dos livros enquanto os leio. Assim como o dos jornais e das revistas. Rola uma certa proximidade. O que não acontece com os textos digitais.

Não apenas o cheiro, mas sentir o objeto em mãos, a textura do papel, o peso. Tenho a impressão que tudo isso facilita a compreensão da leitura. É uma imersão, sem distrações. O foco constante e aprofundado apenas no deleite de uma única leitura. Digo uma única, pois enquanto estamos lendo algo em plataformas digitais é muito comum pararmos no meio para abrir algum outro site, ou, se estivermos no celular e tablet, não resistirmos e abrir aquele vídeo enviado no grupo do WhatsApp. Atire a primeira pedra quem nunca disse “só vou responder essa mensagem e continuo a leitura”? Uma mensagem de várias.

Não estou fazendo esta reflexão aqui por dedução minha. Recentemente li um artigo na internet. Sim na internet. Afinal, preferir o papel, não significa ignorar o digital. Ao menos era curto, e não deu tempo de me distrair, exceto com um anúncio de como ganhar dinheiro sem sair de casa. Enfim, voltando ao raciocínio. No tal artigo, uma linguista americana chamada Naomi Baron, afirmou que, quem lê no papel, tende a se dedicar à leitura de forma mais contínua e por mais tempo. Além disso, tem mais chances de reler o texto depois de concluído. Sem contar que a retenção da leitura fica melhor. Legal, né? 

Claro que sabemos que o digital está tendo cada vez mais espaço e receptividade, e, futuramente, será algo normal para as próximas gerações. O que não deixa de ser um pouco incômodo. Será que mesmo as próximas gerações nascendo entre textos digitais terão a mesma capacidade intelectual das gerações que se desenvolveram entre os papéis? Confesso ficar meio inseguro com a resposta que possa haver para isso.

De qualquer forma, enquanto ainda a tinta e as folhas não forem extintas, seguirei ao lado delas. Mas não ficarei chateado se lerem esta coluna online também, no Facebook ou no meu blog brasacronicas.blogspot.com, onde guardo todas elas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

SEJAMOS TORCEDORES

        Eu já pensei em ser atleta. Isso há muito tempo atrás, quando eu ainda não tinha consciência de que eu simplesmente não servia pra coisa. Era sempre o último a ser escolhido para o time da pelada. Minha miopia me fazia confundir quem eram os adversários e quem eram os companheiros do time. Com o passar dos anos decidi abandonar de vez a vida de atleta profissional. Agora me conformo com algumas corridas na praça e academia.

No entanto, ao contrário do guri desajustado que eu era, hoje existem milhares de garotos e garotas que possuem um talento nato para o esporte. Com pouco ou nenhum treinamento, conseguem se destacar de forma diferenciada. Por sorte, muitos são descobertos e conseguem levar o sonho em frente, profissionalizando-se, conquistando espaços e orgulhando a família. Dessa gurizada, muitos estão lá no Rio participando de uma primeira Olímpiada. Imaginem alguém que passou praticamente sua vida toda - visto a pouca idade de alguns atletas -, se dedicando da forma que fosse possível e, certo dia, estar representando o país inteiro.

        Pois é esta imaginação que a grande maioria das pessoas ignora quando só tem olhos para críticas, para o rancor, enfim, para a pura rabugentisse mesmo. Claro que estamos em crise política e financeira. Mas o que aqueles atletas que estão realizando o sonho de participar de uma competição deste tamanho têm a ver com isso? Eles só fizeram o trabalho deles. Estudaram, treinaram, sofreram. Se dedicaram. E querem mostrar a sua arte para que a gente torça por eles. Para que a gente os parabenize e se emocione. Talvez este seja nosso problema. Estamos perdendo a capacidade de torcer, de nos emocionar. É mais fácil chutar o pau da barraca e brigar contra “tudo o que está aí”. Ao menos, se for brigar, que briguemos com argumento. Que olhemos para nossos atos cotidianos. Que saibamos identificar nossos próprios erros. Que consigamos debater ao invés de apenas escrever comentários inflamados em qualquer tipo de publicação na internet. E podemos começar a aprender isso tudo olhando nos rostos de felicidade dos nossos atletas que estão disputando sua primeira medalha.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

EM CENA

Dizem que precisamos ser nós mesmos. Ser verdadeiros e espontâneos a fim de expressarmos nossas verdadeiras personalidades. Basta agora saber qual das personalidades, afinal, em cada momento do dia, em cada contexto onde estivermos inseridos, usamos uma determinada personalidade. As tais máscaras sociais que cada um leva consigo para cima e para baixo, muitas vezes sem nem se dar por conta.

Carregarmos essas máscaras não significa que somos pessoas falsas, mas sim, que somos pessoas moldadas para agirem de determinadas formas em determinadas ocasiões. Se isso é bom ou ruim, eu não sei. Depende da máscara que eu estiver usando.

Mas creio não ser tão ruim, não. Até porque não seria interessante chegar na reunião do trabalho falando como se estivesse com os amigos assistindo a uma partida de futebol. Muito menos chegar na casa dos parentes se comportando como se estivesse na festa open bar da turma da faculdade. Claro que para toda regra há uma exceção. Na verdade são elas que dão graça às regras.

A verdade é que não podemos simplesmente arrancar essas máscaras dos rostos e jogar fora – apesar de dar muita vontade, às vezes. Precisamos apenas guardá-las sempre próximas, para que elas se entendam e possam conviver em harmonia. Cada vez mais o teatro da vida vai se aperfeiçoando, os atores vão se especializando, logo as performances de cada personagem vão ficando cada vez mais complexas. E para acompanharmos esta complexidade, devemos estar em constante movimento e aprendizado.

Só é preciso saber os momentos certos de se entrar em cena. Ter segurança. Ter equilíbrio mental. Aprender a relaxar, respirar, falar, gritar, enxergar. Aprender a aprender. Usar o tempo a favor e não retirar o tempo do outro. O outro deve fazer parte de uma unidade multifuncional, na qual também temos nossa cota. Dessa maneira, é possível acompanhar o espetáculo de maneira mais intensa e compreensiva, para no final podermos aplaudir e sermos aplaudidos. De preferência de pé.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

UM POUCO DE SAUDOSISMO FAZ BEM

Todo mundo possui um pouco de saudosismo. Isso é bom. Quem não gosta de lembrar dos tempos passados? Não que eles fossem melhores. Até podem ter sido em alguns momentos, para algumas pessoas. Mas apenas a saudade, as lembranças e a nostalgia já nos passa uma sensação agradável que nos faz esquecermos um pouco os perrengues diários. Aqui temos um ponto engraçado. Se tratando do passado, até mesmo alguns perrengues se tornam motivos de boas lembranças. O que comprova que o tempo realmente é o melhor remédio para os problemas que enfrentamos.

Mas, o melhor mesmo são as lembranças leves e divertidas. Lembrei disso ao devorar a nova série do NetFlix, Stranger Things, praticamente uma homenagem aos anos 1980. Seus protagonistas são crianças desvendando mistérios em cima de suas bicicletas; ouvem fitas cassetes; falam em walkie talkies. É puro saudosismo, além, claro, do ótimo enredo. Só que isso é outro assunto, até mesmo porque não sei falar de séries sem dar Spoilers.

Então, assistindo a série me lembrei do tempo em que meus amigos e eu, como verdadeiros marceneiros, cortávamos madeiras, pregávamos – muitas vezes o dedo - , nossos próprios carrinhos de lomba. Hoje penso na inconsequência de nossos atos – e dos nossos pais que permitiam. Descíamos no asfalto, com um carro precário a 5cm do chão, chegando ao final do trajeto dando um cavalinho de pau, que muitas vezes resultava em uma capotagem e muitas risadas.

Também lembro das pipas que fazíamos com jornal e cola feita de farinha misturada com água. Brincadeira menos emocionante, mas nem um pouco menos divertida. Ficávamos sentados no campinho sentindo a pandorga flutuar suave lá no céu. Pequenas delícias que traziam grandes alegrias.

Conforme comentei antes, não significa que eram tempos melhores ou piores. Não podemos viver no passado. Pode ser piegas, mas basta vivermos bem o presente para no futuro termos um passado de lembranças saudáveis.  Não que as bombinhas que estourávamos nas casinhas de carteiro da vizinhança nas vésperas de festas de finais de ano também não fossem divertidas, mas confesso que essas atitudes não precisam ser repetidas. Mas ainda pretendo ao menos terminar um álbum de figurinhas, pois nunca consegui.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

PODER DE ATRAÇÃO

Ser bonito e atraente é o grande desejo nos tempos de redes sociais e compartilhamentos massivos de fotos. São caras e bocas e tantos biquinhos que, se pararmos para pensar, o bonito está começando a se tornar feio. No sentido de cômico. Não se trata apenas de uma questão de aparência, mas de chamar atenção. Custe o que custar.

Li esta semana uma matéria em uma revista que mostrava uma lista com nove coisas que, segundo a ciência, deixam as pessoas menos atraentes. Me chamou a atenção para a leitura o fato de serem fatos comprovados cientificamente. Por isso resolvi ler na íntegra, além de só a chamada principal, como costumamos fazer com as notícias em nossa timeline.

Não citarei todas, só as mais interessantes. Aquelas que acredito serem realmente importantes – no meu ponto de vista – para melhorar a atração, não no sentido sexual, mas social. Melhorar nosso convívio com outros seres humanos. Pois parece que andamos esquecendo um pouco de como isso funciona.

Diz a matéria que parecer estressado deixa a pessoa menos atraente. Parece óbvio, sim. Mas sempre é bom lembrar.

Outro detalhe apontado - não tão óbvio assim - é que, parecer extremamente feliz não transforma ninguém em um ser apaixonante. Um estudo utilizando fotos, mostrou que as pessoas que apareciam com posturas muito felizes e orgulhas eram escolhidas como as mais feias. Claro que não é para ser um mórbido, apenas pegar leve. Ser natural e tentar se aparecer menos já está ótimo.

E mais importante entre todas as coisas que deixam alguém menos atraente é não ter senso de humor. Apesar de ainda existirem pessoas que se acham o máximo fazendo um tipo misterioso e blasé. Dizem que são refinados e não riem por qualquer coisa.

O que fica claro mesmo é a necessidade de encontrarmos um equilíbrio. Sermos nós mesmos e aprendermos a lidar com nossos defeitos e os defeitos dos outros. E, principalmente, aprender a não dar tanta importância para listas de supostas pesquisas que encontramos em revistas.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

CURTO, LOGO EXISTO

É preciso plateia. O show nunca para. Não há mais intervalos e muito menos tempo para descanso. O próprio conceito de tempo parece estar se desconstruindo, como na clássica pintura do Salvador Dali. E todos buscam acelerar ainda mais esse tempo e preenche-lo. Na maioria das vezes, mais do que o tempo, parece que o que sempre precisamos preencher é a nossa autoestima de maneira insaciável, como se precisássemos, constantemente, estar provando algo para alguém. Quando na verdade não precisamos, a não ser para nós mesmos.

 Quando o filósofo René Descartes disse “Penso, logo existo”, nem sonharia que um dia o mundo seria com é hoje. Não digo que não gostaria, talvez até curtisse. Mas provavelmente postaria em seu Facebook algo como “Curto, logo existo”. E estaria resumindo a necessidade de obtermos infinitas apertadas naquele botão da rede social que todos adoram ver aumentando a quantidade. Há até quem mande uma mensagem para os amigos curtirem determinada publicação. E aqui já deixo um aviso. Quando um conhecido pedir para você curtir uma foto do churrasco de domingo, faça isso. Você estará contribuído com a diminuição de casos dessa espécie de depressão tecnológica. Você fará uma pessoa feliz com um clique, literalmente.

Todos sofrem um pouco de ansiedade por verem que seus contatos virtuais não estão curtindo suas peripécias e fotos marotas. Mas por favor, não precisam pedir para eu curtir algo. Com se não bastasse a preocupação de pagar contas, ligar para o 0800 da operadora de telefone devido as cobranças indevidas, marcar o dentista, concluir trabalhos em casa por falta de tempo de fazer no horário de expediente, ainda tenho que anotar na minha agenda que preciso apertar o botão “curtir” da foto de uma taça de vinho no Face do fulano? Enquanto eu estou tomando um refrigerante, geralmente sem gás porque já estava aberto há dois dias.

Assim como o conceito de tempo parece estar se transformando, o conceito da palavra curtir também parece. Da expressão que remete a uma apreciação muito forte por algo, passa a ser vinculada a uma questão mais quantitativa do que qualitativa, onde os números valem mais do que tal apreciação. Mas fiquem à vontade em curtirem esta coluna quando eu a postar no meu perfil.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

COMPORTAMENTOS DESCOMPORTADOS

Precisamos falar sobre inconveniência. Aquele comportamento que certas pessoas têm de não respeitar o espaço do outro. De falar nos momentos que seria melhor se continuassem imersas na tela do celular. De ter certeza que sabem de tudo e de todos, das teorias futebolísticas ao segredo da vida. Você deve conhecer alguém assim. Uma única pessoa. Eu conheço, e até não são más pessoas. Talvez falte um pouco de terapia, sei lá. Ou um puxão de orelha mesmo. Mas a convivência não chega a ser insuportável.

Esses comportamentos inconvenientes, por um lado, servem para aprendermos a não agir de tal forma. Observar para não cometer o mesmo erro.  Simples assim. O problema é que, às vezes, mesmo observando e buscando jurar para todos os santos que não seremos inconvenientes, em determinado momento, lá estamos, por exemplo, interrompendo alguém no meio da conversa entre amigos na mesa do bar. Ou gritando para falar com alguém que está a meio metro de nós. São deslizes. Todos cometemos deslizes. Sorte que percebemos. O grande mistério são aqueles que não se dão conta de sua chatice – para ser mais direto – e, ao invés de tratarem esse defeito, vão o alimentando. E assim, a coisa começa a tomar proporções assustadoras. Começamos a ficar com medos dessas pessoas. Mesmo que nossa educação diga que precisamos respeitar o semelhante. A questão é que tais pessoas já não são mais tão semelhantes, parecem seres vindos de outro planeta querendo, de alguma forma, nos atingir. Mas a dica é ser forte e encarar o bicho. Ninguém merece ser ignorado. Afinal, somos seres civilizados.

Talvez o comportamento inconveniente seja um mecanismo de defesa para algum tipo de insegurança. Talvez seja algum tipo de sintoma de hiperatividade não tratada. Ou um desejo reprimido que o inconsciente fica trazendo à tona. Bem, neste caso, só se for um desejo malévolo, para tamanha mania de perturbação do espaço alheio. Complexo de superioridade? Não sei, e deixo o assunto para especialistas descobrirem, antes que eu comece a me tornar inconveniente escrevendo isto.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

CONSUMO NOSSO DE CADA DIA

Somos o que consumimos. Se isso for verdade podemos dizer, também, que somos seres indefinidos, devido à infinidade de coisas que compramos. Muitas dessas coisas que ficam atiradas naquele quartinho de tralhas, que simboliza a cultura da acumulação e do desperdício em que vivemos.

Compramos para satisfazer nossas necessidades e também para satisfazer os desejos. Porém, os desejos são tantos, que se misturam e nos confundem, fazendo com que esqueçamos o que realmente desejamos. Talvez não desejamos tanto. Mas somos impulsionados por campanhas publicitárias sedutoras que nos mostram como ficaremos poderosos dentro daquele carro de luxo com uma moça no banco do carona, que vemos no intervalo da novela das nove. Aliás, por que a mulher também aparece como uma espécie de objeto conquistado, em campanhas de diferentes produtos?

Consumir faz com que a economia se movimente, a sociedade se desenvolva, e, claro, as pessoas fiquem felizes. Bonito. Mas esse desenvolvimento e essa felicidade não podem ser alcançados sem medir consequências e ter em mente os limites dos recursos naturais. Por isso se faz necessária uma educação voltada para o consumo consciente, colaborativo, onde o desperdício seja reduzido e o convívio entre as pessoas seja fortalecido. E essa mesma propaganda que é vista como vilã, por estimular o consumo exacerbado, pode ser direcionada para este consumo focado no sustentável. Inclusive, já existem muitas empresas que direcionam suas estratégias para este conceito. Basta sair da zona de conforto e abrir mão do conservadorismo. 

Não significa que não iremos mais enfrentar fila para entrar em um shopping lotado, com um estacionamento caro e sem vagas, nas vésperas de uma data comemorativa, em um dia de sol de outono - no qual poderíamos estar sentados em uma praça tomando um chimarrão com os amigos -, apenas para comprar um presente, que corre o risco de não ser muito agradável ao gosto de quem irá receber. Digo isso por ser péssimo em comprar presente. Já tive experiências desagradáveis com isso. Enfim, voltando ao raciocínio, não custa nada um pouco de reflexão. Talvez possamos perceber melhor que nem tudo se resume ao material, mas também ao emocional.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

MANUAIS DE MAIS E CONSCIÊNCIA DE MENOS

O convívio social pode não ser uma das coisas mais simples que existem. Tudo bem que também não é nada de outro mundo. Mas, ser educado. Ter respeito. Saber ouvir e falar nos momentos certos são pequenos detalhes básicos que irão ajudar muito na tarefa de lidarmos uns com os outros, ainda mais em tempos de extremismos e disseminação de ódio que se espalham como virose.

Isso me veio à mente quando vi, na vitrine de uma livraria, a capa de um livro sobre boas maneiras. Não lembro o nome, até porque não me interessei, por acreditar que boas maneiras não devem ser apresentadas como um manual de instruções humano. Boas maneiras têm a ver com nosso bom senso, com nossa dignidade de sabermos que cada um tem seu espaço. Independente se você está ou não utilizando os talheres do lado correto do prato, ou se corta o espaguete ou se o enrola. Eu, pessoalmente corto. E como junto com arroz, para desespero de engessados frios e calculistas de poucos sorrisos.

Por isso não me interesso por um livro de boas maneiras. Para também não me transformar em um desses paranoicos que prestam atenção em cada movimento com medo de estarem cometendo alguma gafe e serem taxados de mal-educados. Acho que nosso tempo anda cada vez mais curto, e ainda vamos nos martirizar por tão pouco? Não vamos, não. Não concorda?

Do que adianta tantas normas serem criadas focando em interações sociais bem-sucedidas, se leis constitucionais não são obedecidas. Se bilhões são desviados e já não mais causam espanto. Se a energia elétrica é usada de maneira clandestina em muitas residências, tal como a luz e água. Se policiais despreparados matam inocentes nas ruas. Se as mulheres ainda são alvos de violência física e moral devido ao machismo que impera até mesmo em entidades que deveriam protege-las. Se a homofobia ainda é latente em nossa sociedade. Portanto, se há uma regra que deve ser seguida é a da consciência. 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O SHOW DA VIDA

O termo Big Brother, antes de ser o nome do Reality Show recheado de bizarrices que conhecemos, foi o personagem do romance 1984, do escritor George Orwell. O Grande Irmão, no livro, representava um estado totalitário, na qual toda a população era constantemente vigiada e, sem direitos, continuamente manipulada ao bel prazer de seus governantes.

O livro foi escrito em 1949, mas expressa um conceito muito próximo ao contexto que vivemos hoje em dia, imersos em redes sociais, no qual nós sabemos de todos e todos sabem de nós. Basta ligar o celular que já descobrimos onde determinado amigo almoçou, com quem e qual foi o prato. E também se este almoço estava saboroso ou não. O lado bom é que isso  acontece por livre e espontânea vontade, ninguém obriga as pessoas a estarem expostas. No entanto, quanto mais alguém se priva desta exposição, mais as críticas têm aumentado. Como se a pobre criatura estivesse cometendo algum tipo de erro por escolher não sair publicando sua vida em redes sociais. Alguns começam a pensar que esta pessoa não é feliz. Afinal, onde estão as fotos das viagens, das confraternizações, dos amigos secretos? Às vezes tenho a impressão que a felicidade de alguns não passa de um mosaico de imagens.

Obviamente, assim como não se pode criticar quem escolhe manter sua vida na discrição, também não é correto atirar pedras em quem adora ocupar centenas de gigabytes com imagens pessoais. Mas é preciso que o bom senso seja mais vezes utilizado. E o que vemos parece bem ao contrário. É como se a vida fosse um espetáculo. Se bem que a forma que andam as coisas, pode sim ser chamada de espetáculo.

Mas com essa imersão em uma vida cada vez mais transparente, é preciso aprender as sutilizas de um convívio mais civilizado e harmônico, primeiramente respeitando o espaço do outro. Depois, respeitando o seu próprio espaço, no sentido de se prevenir contra uma exposição extrema da vida pessoal, que pode até estar virando um espetáculo, mas não precisa ser gratuito.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

MARIA VAI COM AS OUTRAS

Gosto de pessoas que têm personalidade. Que possuem opinião própria e são decididas quanto às suas escolhas, independente se vão ou não agradar os outros. Você provavelmente deve conhecer alguém assim. Não que seja fácil, já que hoje é muito comum encontrarmos pessoas que trocam de opinião assim como trocam de canal durante um domingo de programação tediosa na televisão. Alguém assim você também deve conhecer. Esses existem de sobra.
Às vezes me pergunto se é realmente falta de personalidade de certas pessoas, ou apenas um medo de serem elas mesmas, preferindo sempre agradar mais os outros que a si próprias. Existem aqueles que na frente de uns argumentam ter um tipo de opinião, e na frente de outros defendem exatamente o contrário. Vá entender. 

Dia desses encontrei uma pessoa lendo o livro O Código da Vinci dentro do trem. Um amigo que estava comigo olhou e fez um comentário para mim dizendo que o tal leitor tinha mau gosto por ler aquele livro. Era previsível. Popular. Respondi dizendo que eu havia lido o livro, pois apesar de realmente ser uma escrita de fácil compreensão, com narrativa previsível, era uma boa opção de lazer, e, principalmente, que toda a leitura é um ótimo exercício, especialmente se ela for agradável para quem estiver lendo. Ou seja, se faz bem para a pessoa, é isso o que importa. Seja feliz e não deixe de fazer algo que goste só por causa da opinião alheia.

Creio que as pessoas andam ansiosas demais. Esse é o problema. Mas se conseguissem relaxar um pouco, não prestariam tanta atenção nos outros e olhariam mais para o seu interior, buscando a senhora personalidade em algum canto da alma. O pior é que há aqueles que já a perderam de vez. E levam suas vidas como “Maria vai com as outras”, como meus avós chamavam quem vivia sempre no rastro de alguém. Só que já são tantos rastros se cruzando, que logo vai acontecer uma pane e precisaremos aprender a nos conhecer novamente. Aí poderemos ler, vestir, ouvir, e comer sem nos preocuparmos se estamos fazendo como “os outros”. Apenas nos preocupar se estamos fazendo com gosto.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

NOSTALGIA CINÉFILA

Me lembro do tempo em que eu ia na vídeolocadora nas sextas-feiras. Alugava dois filmes e podia entregar só lá na segunda. Que maravilha.  Seriam dois filmes para o meu final de semana. Dois. Lançamentos que acabaram de sair das telas do cinema me acompanhariam com um balde de pipoca. Jurassic Park tinha uma caixa promocional toda preta com esqueletos de dinossauros estampados em alto relevo.

Ainda existem muitas na minha cidade. O que não existem são as fitas VHS, mas DVDs e BlueRays existem nelas. Eu sempre fui adorador de vídeolocadoras. Minha vontade era ter uma. O Tarantino trabalhou em uma e hoje é um dos mais cultuados diretores de cinema da atualidade. Bem, eu não almejava ser um diretor. Talvez um roteirista. Mas o que quero dizer é que, eu sempre adorei estar dentro desses espaços passando horas olhando todas as prateleiras de fitas, inclusive aquelas que ficavam em um espaço mais reservado. No entanto, dias desses, enquanto comia uma bergamota sentado ao sol, me dei por conta que nem o cinema eu tenho frequentado ultimamente. Uma lástima. E não são preços. Porque em Porto Alegre encontramos ótimos filmes em lugares como o Santander Cultural e Casa de Cultura Mário Quintana a preços praticamente simbólicos. Mas eu não tenho ido. Essa é a verdade.

O que tenho feito ultimamente, assim como a grande maioria de nós, contemporâneos imediatistas que somos, é ficar passeado pelos menus do NetFlix à escolha de um bom filme. E existem vários. Muitos filmes que eu não consegui assistir nos cinemas e não encontrava nas vídeolocadoras estão ali. Mesmo assim, às vezes sinto como se faltasse algo. Alguns podem dizer que é apenas um sentimento de nostalgia, que preciso deixar aquele velho pensamento de que sempre o que se fazia no passado era melhor. E nem sempre é. Mas falta algo. E esse algo são os rituais das coisas que não eram tão automatizadas quanto hoje, diferente de quando íamos até às locadoras de filmes, escolhíamos a prateleira de acordo com a categoria, conversávamos com o atendente sobre as novidades, assinávamos a ficha, algumas vezes participando de alguma promoção e corríamos para casa curtir nosso Panasonic sete cabeças. Tudo bem, talvez seja mesmo um sentimento nostálgico. Mas a nostalgia é agradável. Menos a parte de rebobinar a fita.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

VIDA MATERIAL

O bom mesmo é ser uma pessoa respeitada. Que todos admiram e sonham ser igual um dia. Na verdade invejam ser igual, mas o verbo “sonhar” soa menos agressivo. Eu conheço gente assim, que babam por ter a grama tão verde quanto a do vizinho. O problema é que a grande maioria dessas pessoas almeja apenas isso. A grama. Ou seja, querem o superficial, querem a casca que irá ser apresentada ao grande grupo.

Um exemplo é um dos maiores amores dos brasileiros. O carro. Admito que não conheço a cultura de outros países. O máximo que a verba me permitiu foi experimentar as empanadas da Argentina. Bem, mas o certo é que o culto ao carro aqui no Brasil beira ao exagero. Não importa por quanto tempo se ficará endividado, desde que você possa chegar a uma festa de aniversário, ou na missa de domingo com o seu possante cheirando a novo para que os sorrisos comecem a se derreter massageando o seu ego. Agora você é o cara. Tudo bem que tenha esquecido de pagar a prestação da faculdade, a casa, e reduzido a sua cesta básica. Agora sua pessoa terá uma aceitação maior dentro da firma.

A verdade é que o problema, obviamente, não é o fato de alguém desejar comprar um carro do ano. Por sorte vivemos em um país livre. O ponto aqui, é a percepção que a sociedade tem em relação a posses de terceiros. O carro é só um exemplo. Já ouvi indivíduos elogiarem alguém com brilho nos olhos e me dei por conta que todos os argumentos direcionados ao elogiado eram devido a sua conta bancária, marcas de roupa e, claro, a “nave” que ele dirigia. Em nenhum momento ouvi algo relacionado ao seu comportamento e atitudes como ser humano.

Por sorte, mesmo esse posicionamento materialista sendo bastante forte dentro da sociedade, é possível perceber que, hoje em dia, há um aumento expressivo de troca de valores, como o consumo colaborativo e a economia criativa. Mas isso já é tema para outro debate. Por enquanto vou voltar ali para o congestionamento.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

FIM DE ABSTINÊNCIA

No primeiro dia é fácil. As pessoas até afirmam que não precisam, que não faz falta. Afinal, elas param quando querem. Mas, logo no segundo dia, a crise de abstinência começa a se manifestar pelo organismo, trazendo ansiedade, menos sorrisos e até alucinações, comprovadas quando o indivíduo pensou que ouviu o toque, e ao pegar o celular para checar a mensagem, não havia nada. Pois ele nem se quer tocou. Isso porque o aplicativo preferido estava fora do ar.

E olha que o querido WhatsApp nem chegou a cumprir a pena máxima imposta de 72 horas. Creio que as autoridades perceberam a tensão coletiva que se formou e, assustados, resolveram liberar sua utilização para o deleite daqueles que já suavam frio pelas ruas, perdidos ao meio de outros seres humanos, percebendo-se incapazes de mandar uma selfie para o grupo de amigos, mesmo que este mesmo grupo tenha se encontrado dois dias antes em uma praça. Ao vivo. Mas talvez pareça mais tempo, pois neste encontro, cada um estava mandando suas mensagens para um outro grupo, que ninguém do primeiro participava. Confuso. A vida é confusa.

Mas o barato retornou às ruas. Os semblantes relaxaram como se todos estivessem curtindo a mesma música. Sentados em cangas enquanto comem uma bergamota no sol. Até os trabalhos ficaram mais produtivos, contrariando o que dizem os gestores da velha escola, de que tais ferramentas tecnológicas podem tirar o foco das tarefas. Não, amigos. O foco está de volta. Apenas voltou a ser dividido com o Whats e suas mensagens com piadas, com as frases de motivação, com os nudes, com as brigas dos grupos, com as paqueras, com as fofocas, com os desabafos, com as gafes cometidas por causa do corretor automático de palavras ou uma mensagem enviada errada, com a ansiedade de ver que o receptor leu a mensagem, mas ainda não respondeu. Até mesmo com mensagens de trabalho, inclusive fora do horário de expediente. Ou seja, agora o foco é constante, estando ou não no trabalho. E não seria melhor aprendermos a perder um pouco o foco?

quinta-feira, 28 de abril de 2016

ENTRAMOS NO CLIMA

O clima e a conversa estão intimamente ligados. Ele pode ser o gatilho para um longo diálogo ou apenas uma oportunidade para quebrar o silêncio de um elevador. Mas as características do tempo, principalmente aqui do Sul, que são mais incertas que um casamento, sempre auxiliam na troca de palavras triviais até mesmo entre completos desconhecidos. E isso é bom. Mostra como o ser humano, mesmo imerso em individualismos e com pouco tempo para tudo, ainda possui certa sensibilidade. Ainda somos humanos – apesar que desconfio de alguns hoje em dia.

E esta semana o clima nos surpreendeu trazendo temperaturas que eu não lembrava mais que existiam. Frio de renguear cusco. E muito marmanjo também. Pelo menos ele ajudou a trazer para os rostos das pessoas um ar mais receptivo. Resta saber até quando. Acho que estavam cansados daquele calorão. Acho nada. Tenho certeza que cansaram e estavam fechadas no seu âmago apenas suportando um clima que já deveria ter nos deixado. Mas, com essa mudança, venho recebendo mais “bom-dias”. E não só recebi. Até mesmo iniciei uma conversa enquanto tomava um café quente durante uma tarde em uma certa padaria. Afinal, com esse frio e no meio da tarde de um dia de semana, o que melhor do que uma padaria cheirando a pão recém tirado do forno e café passado na hora?

Então, enquanto esquentava as mãos na minha xícara de cappuccino no balcão, instintivamente falei aquele “caiu mesmo a temperatura, né?” para a atendente que espontânea e educadamente sorriu enquanto me entregava um pão de queijo e concordou, dizendo que adorava o frio. Ela comparava o frio com uma Bossa Nova, me disse. E o calor com um Carnaval. E ela amava Bossa Nova, falou. Concordei, mas ela teve que ir atender outro cliente, que também estaria afim de conversar sobre o clima, tenho certeza. Espiei com o canto do olho, torcendo para que ele não puxasse conversa com a minha nova amiga de sorriso largo, olhos levemente apertados e ainda por cima apreciadora de Bossa Nova. Mas não poderia fazer nada. Não se pode lutar contra o clima.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

VIDA COMPARTILHADA

- Estou falando com você, Carmem.

Ela estava com a boca semiaberta olhando para o celular.

- Carmem!

- O que foi, Tadeu.

- O que foi? O que foi? Estou aqui falando enquanto você não tira os olhos desse celular.
Carmem o encara. O celular ainda na mão.

- Diga, homem. 

- Como assim “diga”? Não ouviu nada do que eu falei? 

O garçom trouxe o vinho que haviam pedido. Carmen levanta os olhos.

- Vinho?

- Mas você concordou em pedir vinho. A questão é que você não presta mais atenção em nada do que te falam. Você não consegue mais largar esse telefone. Já li sobre isso. Você está viciada, isso sim. Segunda-feira vou procurar um especialista.

- Tá bom. Confesso que às vezes exagero.

Ele olha para o celular na mão dela. Então Carmem entende o recado e o coloca na bolsa.
Tadeu enche as duas taças e propõe fazer um brinde. Ambos sorriem. Quando vão tocar as taças, Carmem interrompe e tira o celular da bolsa.

- Não, não, não.... – protesta Tadeu.

Carmem se defende.

- Só uma foto do brinde.

A VIDA EM SELFIES

Conheço uma amiga que tem mais de 5 mil selfies. Ela descreve com orgulho cada foto tirada. De cada uma delas ela lembra a história, o dia, horário. É quase um projeto artístico desenvolvido. Tem até de velório de um escritor famoso. Eu sempre finjo uma cara de espantado quando ela começa e me mostra toda orgulhosa suas “obras de arte”, mas confesso que quando vi seu rosto com um caixão de uma pessoa que não era do seu ciclo de amizade ao fundo, realmente fiquei muito espantado. Mas os olhos dela brilhavam. Então elogiei o trabalho como um técnico atento aos detalhes de luz e ângulos. Ela parecia uma criança boba.

Eu mesmo, seguidamente apareço em uma dessas fotos junto com minha amiga. Até gosto, pois como ela compartilha todas em sua rede social vai que, em alguma dessas, alguma amiga sua queira saber quem era o modelo ao lado dela. Mas ainda não aconteceu. Nem por isso me nego a tirar uma foto com ela. Digo isso, porque já percebi que a relação dela com a selfie é quase obsessiva. Aliás, é obsessiva. Afinal, quem em sã consciência tira um autorretrato diante de um caixão com pessoas chorando em volta? Minha amiga tira. Bem, mas uma dica é nunca contrariarem um selfiemaníaco. E também não vale não sorrir. Aceitem o convite. Sorriem. Depois de algumas já se consegue aprender até a fazer biquinho.

Em uma dessas tiradas de selfies com minha amiga, comentei que qualquer dia ela iria bater o recorde de pessoas com maior número desse tipo de fotografia. A incentivei dizendo que, hoje, na era da internet, qualquer um pode virar um pouco celebridade, no sentido de ter seus quinze minutos de fama. Ela ficou em silêncio. Pensativa. Talvez vislumbrando sua futura profissão. Então voltou a si. Arrumou os cabelos, ensaiou alguns biquinhos. Me puxou para perto de seu rosto. Pensei que ganharia um beijo de recompensa por ter dado a ideia, mas foi apenas mais um clique meu que iria para sua galeria.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

UNIÃO AMIGÁVEL

Há quem não suporte estar sem fazer nada. Aliás, sem fazer não. Não suporte fica fazendo nada. Muitos acreditam que esse sentimento de vazio é perda de tempo, improdutivo, e que apenas nos tira a atenção dos nossos compromissos e nos fará pessoas ignorantes, entregando nossa mente para pensamentos nebulosos. Cabeça vazia, casa do diabo.

Porém, todo esse sentimento de ansiedade que não permite muitos terem alguns breves instantes consigo mesmo pode ser tão prejudicial quanto esvaziar um pouco a mente e aproveitar o nada do momento. Inclusive, existe um movimento chamado Nadismo, que busca oferecer mais qualidade de vida fazendo com que ela desacelere em alguns momentos do dia. E, ao contrário do que muitos imaginam, ficar fazendo nada não se trata de perder tempo. E sim de melhor equilibra-lo à rotina.

Diversos indivíduos se sentem culpados se precisarem desconectar por alguns minutos. Sentimento de culpa que é apenas um sintoma de ansiedade que toma conta de um número cada vez maior de pessoas no mundo. Isso gera tensão. Gera preocupação constante. Sofrimento que não se sabe nem o motivo. Busca desesperada por atenção que acaba gerando uma frustração, que acaba levando a tristeza, que acaba levando ao desespero e a uma concorrência com o próprio ego.

O que pode parecer uma mente produtiva, sempre ativa e disposta, em alguns casos, trata-se apenas de uma mente mais atrapalhada do que aquela que se permite fazer o nada. Podemos imaginar o fazer nada como uma faxina em um computador lento, que trava constantemente e, não raro, é preciso ser levado para a manutenção para poder seguir seu trabalho horas a fio. Em determinado momento ele dá pau de vez.

Para não ser levado para o conserto - ao menos não antes da hora -, nada como aprender a relaxar. Nada como diminuir o ritmo. Nada como dar uma pausa. Nada como... o nada.