quinta-feira, 1 de junho de 2017

VOCÊ E VOCÊ MESMO

Uma ansiedade intensa vem se manifestando cada vez mais entre as pessoas, fazendo com que elas não consigam tomar decisões direito, não ouvir direito e, sobre tudo, não ter capacidade de se relacionar direito consigo mesmas. Aliás, até com outros indivíduos o relacionamento real ultimamente anda meio morno. Mas, ao contrário do que alguns pensam, este relacionamento intrapessoal é tão importante quanto a capacidade de interação e pertencimento a algum grupo.

Esse contato mais próximo de si mesmo é uma questão de autoconhecimento, reflexão e independência, que irão contribuir para um amadurecimento e irão ter reflexos positivos em momentos de interação social. No entanto, olhar para nós mesmos significa saber aproveitar momentos sozinhos sem nos sentirmos solitários. E para muitos isso é impossível ou acreditam não ser algo normal. Afinal, como pode uma pessoa ir ao cinema sozinha, por exemplo? Só pode ser louco.

Além do cinema, também o teatro, fazer uma viagem sozinho ou tomar uma garrafa de vinho enquanto cozinha sozinho também são ótimas experiências. Isso não tem nada a ver com falta de amigos ou de não gostar de relacionar-se. Esses pensamentos voltados para uma suposta reclusão social é apenas mais um sintoma da ansiedade coletiva que impede as pessoas de tirar os olhos das fotos dos amigos nas redes sociais e olhar primeiro para o espelho.

Uma observação que há muito vem sendo comentada, mas que vale relembrar é sobre aqueles grupos de pessoas reunidas em torno de uma mesa, mas a maioria está mexendo no celular. Isso, para mim, é solidão. Que faz com que as pessoas percam a capacidade de trocar opiniões sobre qualquer tipo de assunto olhando para os olhos dos outros por mais de dois minutos.

Parece que o medo de ficarem sozinhas em alguns momentos acaba justamente deixando as pessoas mais solitárias.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

HORROR FORA DOS FILMES

Recebo diversos vídeos pelo WhatsApp. Praticamente todos os dias. São gatinhos se assustando com um pepino. Cachorros uivando junto com a música. Bêbados sendo flagrados nas mais constrangedoras situações. Peripécias sexuais. Chegou um ponto em que eu já nem me dou o trabalho de abrir esses arquivos. Se abro já excluo, evitando ao máximo atrolhar a memória do meu celular que já está se travando todo com menos de um ano de uso. E juro que evito ficar instalando aplicativos inúteis como “Incríveis sons de peido” ou um jogo em que se ganha pontos ordenhando uma vaca. Ganha quem encher o balde de leite antes.

Bem, mas dia desses, me enviaram um vídeo em que um homem aparecia sendo decapitado com um machado. Tratava-se de uma suposta briga de gangues, como infelizmente têm se tornando comum, e decidi não olhar, ainda mais sabendo do conteúdo. Só que fiquei refletindo sobre o nível de crueldade que um ser humano pode chegar, quase desacreditando em certos comportamentos, e abri o arquivo. E o que eu assisti foram imagens que podem mexer com estômagos mais fracos. Após terminar e guardar o celular fiquei com aquelas imagens na cabeça por algum tempo. O suficiente para perceber que é preciso que a gente se choque de vez em quando, e ter consciência de onde a estupidez humana pode chegar. Entender que existem verdadeiros animais às soltas e que nada é feito. Entender que existe uma verdadeira guerra acontecendo ao lado de nossas casas e famílias.

Já excluí o vídeo insano do meu celular. Mas me pergunto quantos mais ainda serão filmados por essas aberrações disfarçados de seres humanos. E, principalmente, me pergunto por mais quanto tempo certas autoridades ainda acreditarão que alguém que amarra as mãos de um homem, o tortura, arranca sua cabeça com uma machado e a exibe como um troféu poderá reingressar na sociedade. Me mandem mais vídeos de cachorros, por favor.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

UMA QUESTÃO DE ESTÍMULO

Existe uma multidão sempre buscando enlouquecidamente a felicidade, como se ela fosse algo tangível que está em alguma prateleira à espera dos consumidores. Só que ela não está, e isso acaba frustrando essas pessoas que querem tudo empacotado e de mão beijada. Isso porque essa felicidade diz respeito a todo um processo constante de desenvolvimento de cada um, que inclui escolhas e caminhos a serem seguidos. Obviamente sem levar em conta julgamentos por essas tais escolhas que temos que tomar. Cabe a cada um de nós decidirmos o que será melhor. Tendo isso em mente já aumentamos um nível no quesito felicidade.

Falo em nível, porque ao invés de se buscar essa tal felicidade, é preciso se dar por conta que ela já está presente dentro de cada indivíduo, precisando de alguns estímulos aqui e outros ali. Alguns talvez precisem de mais estímulos pra pegar no tranco aquele sorriso já meio enferrujado. Mas o importante é que esse sentimento tão buscado já está aí. Só dar uma sacudida na sua mente que ele vai surgir.

Com certeza não significa que tenhamos que estar felizes em tempo integral. Com os absurdos que vemos e ouvimos todos os dias é preciso também dar umas chutadas de baldes para colocar pra fora aquelas revoltas que nos inquietam. Só não vale exceder os limites. Nem mesmo chutar o balde para o lado de outra pessoa. Em primeiro lugar é preciso lembrar que cada um tem seus problemas, e nada mais chato do que ficar ouvindo lamentos alheios. Já temos os nossos perrengues, não é mesmo? A não ser que o ouvinte esteja disposto a emprestar o ombro amigo - o que é uma atitude louvável, e todos devem praticar esse empréstimo vez que outra. Só nunca atire seus tormentos sem aviso prévio no colo dos outro. E nunca tente encontrar em alguma prateleira algo que já está à sua disposição.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

CERTAS COISAS SÃO INCOMPREENSÍVEIS

Quanto mais se reclama, mais as coisas pioram. Sempre ouvi isso, mas como a maioria dos adolescentes dos anos 90, grudados em seus walkmans com coletâneas gravadas em fitas cassetes, eu achava essa sugestão uma caretice. Entretanto, hoje entendo que me enganava, pois também venho aprendendo a reclamar menos. E a ouvir mais para entender melhor outros posicionamentos, mesmo que algumas vezes exija certo esforço para escutar com atenção e chegar ao entendimento de algumas opiniões contrárias, ao invés de simplesmente ignorar como se o outro fosse um ser de outro planeta. Claro que toda regra tem uma exceção, e talvez existam mesmo uns extraterrestres perdidos por aí com suas teses.

De qualquer forma é preciso, na medida do possível, tentar entender, por exemplo, a criação de um movimento chamado “Armas Pela Vida”. Sim, A-r-m-a-s P-e-l-a V-i-d-a. Como não consegui, tentei me esforçar melhor decifrando o logo do movimento estampado nas camisetas dos participantes. Trata-se de um desenho de um coração com uma arma dentro. Genial, né? Não adiantou. Ainda não havia entrado na minha cabeça, e até me constrangi, pois um engajamento desse tipo deve ter vindo de mentes extremamente desenvolvidas.

Fiquei com minha frustração pensando em silêncio junto de um xícara de café. E a verdade é que existem coisas que nós ouvimos e entendemos, sim, mas de tão absurdas, acredito que algum mecanismo de defesa em nosso cérebro tenta bloquear a capacidade de compreensão. E é preciso muita para absorver que pessoas defendam que possamos andar armados. Fiquei imaginando um casal indo tomar um chimarrão na praça com seus filhos e de repente se dá por conta que esqueceu a arma. “Só não esquece a cabeça por que está grudada. Garanto que nem comprou munição. Isso que falei mil vezes que estavam em promoção as balas de 38. Aliás, você não tem um 38, apenas um calibre 22. Até foi bom não trazer mesmo aquela vergonha”, reclamaria a mulher para seu esposo atrapalhado enquanto voltariam para casa, depois de desistirem de tomar um chimarrão por esquecerem o símbolo da vida. Uma arma.

quarta-feira, 29 de março de 2017

ÉPOCAS

Reclamar que as coisas eram melhores antes. Querer ter nascido em outra época. Há até pessoas que dizem sentir uma espécie de saudade de tempos que não viveram, afirmando que isso é uma espécie de sinal que indica que elas realmente não pertencem à contemporaneidade.

Eu mesmo já pensei em como poderia ser bom ter nascido em um período mais distante, ter conhecido coisas que descobri somente através de filmes e livros. Por sorte me dei por conta que me enganava ao pensar dessa forma. E me enganava feio. Percebi isso quando, há poucos dias atrás, tive que enfrentar o dentista e seus assustadores bisturis e a agulha de anestesia. E, paradoxalmente, a bendita agulha é o que me fez sentir-me confortável. Afinal, graças a ela não senti dor. Então agradeci aos céus por não ter nascido em alguma época distante, onde eu provavelmente teria simplesmente meu dente arrancado sem anestesia. Coisa prática. Na verdade, eu nem teria sido atendido por um dentista, pois em meados do séc. XIX, os médicos tinham nojo de mexer na boca dos pacientes, e, dizem, os barbeiros assumiam os bisturis. Aliás, os alicates improvisados.

E o que dizer das execuções, dos direitos negados às mulheres, das mortes por varíola, sarampo, da lobotomia, que era o procedimento realizado para tratar problemas mentais, como a depressão. Basicamente o crânio do paciente era furado e destruíam as conexões do córtex pré-frontal do cérebro com outras regiões. Simples assim.

Tudo bem que algumas situações extremas que aconteciam foram realmente há muito tempo, e quando as pessoas dizem que queriam ter vivido em outra época, elas se referem a datas que já sejam ali pela segunda metade do século XX. Mas, apesar das melhores bandas terem surgido, e do engajamento dos movimentos socioculturais, não podemos esquecer o conservadorismo exagerado, ditadura e moralismos. Além de tudo a televisão era em preto e branco, não havia internet e nem tantas variedades de cerveja. Portanto, relaxe, apesar de muitas coisas ainda precisarem melhorar, não se desespere, pois ao invés de contribuir, o desespero só vai piorar as tomadas de decisões.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

PROMESSAS NÃO CUMPRIDAS

Já faz quase um mês que o ano iniciou. Tempo curto, mas provavelmente muitas promessas que foram feitas lá na virada do ano já tenham sido esquecidas. Assim como o ITPU e IPVA também tenham sido esquecidos por muitos. Disse-me um senhor com fisionomia de sábio e olhar distante entre a fumaça do cigarro, enquanto eu tomava um pingado na padaria, que a vida só volta ao normal em março, e, que durante janeiro e fevereiro, tudo fica esquecido. Pedi outro pingado e ficamos conversando sobre esse assunto que acredito ser um senso comum.

Mas se tratando das tais promessas que a humanidade faz enquanto pula ondinhas e suja as praias, o esquecimento costuma ultrapassar março e se estender até o próximo réveillon. Aliás, as promessas de um mês atrás, provavelmente já tenham sido uma prorrogação lá da virada de 2015 para 2016.

A verdade é que as promessas parecem que são feitas justamente para não serem cumpridas. Do contrário, o número de fumantes teria diminuído, as academias estariam lotadas o ano inteiro e as pessoas seriam menos estressadas e ficariam mais tempo fora das redes sociais.

Deve ser pelo fato de ninguém gostar de imposições. Mesmo que sejam feitas por nós mesmos. É como se alguém que dissesse para si mesmo que vai parar de fumar quisesse mostrar para o seu eu interior que é dono do seu próprio nariz, rebelando-se, dessa forma, com seu próprio pensamento. Isso sim é que pode ser chamado de alguém osso duro de roer.

Talvez, então, seja o caso de prometermos sempre o oposto. Diga que irá fumar cada vez mais, abandonará as caminhadas e academia, diminuirá as porções de frutas e legumes e não irá mais fazer exames periódicos – a não ser que passe mal. Provavelmente, quando essas situações forem mentalmente visualizadas, não iremos querer segui-las. E teremos as promessas cumpridas. Ou melhor, quebradas.