quinta-feira, 6 de abril de 2017

CERTAS COISAS SÃO INCOMPREENSÍVEIS

Quanto mais se reclama, mais as coisas pioram. Sempre ouvi isso, mas como a maioria dos adolescentes dos anos 90, grudados em seus walkmans com coletâneas gravadas em fitas cassetes, eu achava essa sugestão uma caretice. Entretanto, hoje entendo que me enganava, pois também venho aprendendo a reclamar menos. E a ouvir mais para entender melhor outros posicionamentos, mesmo que algumas vezes exija certo esforço para escutar com atenção e chegar ao entendimento de algumas opiniões contrárias, ao invés de simplesmente ignorar como se o outro fosse um ser de outro planeta. Claro que toda regra tem uma exceção, e talvez existam mesmo uns extraterrestres perdidos por aí com suas teses.

De qualquer forma é preciso, na medida do possível, tentar entender, por exemplo, a criação de um movimento chamado “Armas Pela Vida”. Sim, A-r-m-a-s P-e-l-a V-i-d-a. Como não consegui, tentei me esforçar melhor decifrando o logo do movimento estampado nas camisetas dos participantes. Trata-se de um desenho de um coração com uma arma dentro. Genial, né? Não adiantou. Ainda não havia entrado na minha cabeça, e até me constrangi, pois um engajamento desse tipo deve ter vindo de mentes extremamente desenvolvidas.

Fiquei com minha frustração pensando em silêncio junto de um xícara de café. E a verdade é que existem coisas que nós ouvimos e entendemos, sim, mas de tão absurdas, acredito que algum mecanismo de defesa em nosso cérebro tenta bloquear a capacidade de compreensão. E é preciso muita para absorver que pessoas defendam que possamos andar armados. Fiquei imaginando um casal indo tomar um chimarrão na praça com seus filhos e de repente se dá por conta que esqueceu a arma. “Só não esquece a cabeça por que está grudada. Garanto que nem comprou munição. Isso que falei mil vezes que estavam em promoção as balas de 38. Aliás, você não tem um 38, apenas um calibre 22. Até foi bom não trazer mesmo aquela vergonha”, reclamaria a mulher para seu esposo atrapalhado enquanto voltariam para casa, depois de desistirem de tomar um chimarrão por esquecerem o símbolo da vida. Uma arma.

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