quinta-feira, 31 de março de 2016

FELICIDADE EM MILIGRAMAS

Todos querem estar de bem com suas vidas. Alegres e contentes. Com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. Acordar às seis da manhã com um sorriso de uma orelha a outra mesmo sabendo que o ônibus para o trabalho está em condições precárias, com lotação acima do permitido, e enfrentará um trânsito caótico por vias esburacadas. Todos querem ser essa pessoa. Dá até pra sentir uma ponta de inveja desse indivíduo, mesmo eu sabendo que talvez ele nem exista. Mas sua projeção em minha mente já foi o suficiente.

Eu comentei sobre isso com um amigo há alguns dias atrás, e esta pessoa me disse que consegue estar feliz o tempo inteiro. Olhei desconfiado. Em silêncio. Então ele me revelou que é só tomar diariamente 2,5mg de “gotinhas da felicidade”, conforme chama carinhosamente o remédio bastante conhecido, e, por incrível que pareça, bem popular. Na verdade é quase um ícone da cultura pop. Esse amigo me falou isso, sorriu suave e descontraidamente, e foi embora quase que assoviando entre os pedestres apressados.

Até pode parecer divertido. Mas a verdade é que muitos antidepressivos se tornaram populares e são usados de maneira abusiva por pessoas de todas as faixas etárias. O detalhe é que, se tratam de remédios que necessitam de receita para serem vendidos. Logo, é necessário consultar um especialista. Aqui a pulga fica atrás da orelha. Ou os farmacêuticos decidiram chutar o balde e vender tais remédios sem exigir receita. Ou os médicos estão diagnosticando qualquer um que entra no consultório de mau humor como um quadro depressivo. Sim, o número de pessoas com depressão aumentou. Mas também é verdade que centenas de pessoas que não possuem a doença se automedicam. Acredito que nem fazem ideia do que é tê-la, senão nem achariam tão descolada assim.

Não estar alegre o tempo inteiro é natural. É um meio que o ser humano usa para refletir sobre si, de enxergar por outras perspectivas. De buscar outros caminhos. Corrigir erros e com eles evoluir para alcançar a tal felicidade, que não é vendida em pílulas, e sim construída por nossos comportamentos. E grátis.

quinta-feira, 24 de março de 2016

CONFORTO SÓ NO NOME

Um exemplo de sensação boa é quando tudo parece estar no seu devido lugar. Tudo milimétricamente encaixado. O tempo até parece correr a nosso favor, acelerando e diminuindo seu ritmo de acordo com o nosso, fazendo com que cumpramos nossos deveres diários para que, no outro dia, descansados, possamos iniciar nosso caminho com segurança e estabilidade.

Quando acontece isso, realmente a sensação é boa, e percebemos que ela começa a se repetir. Mas, paradoxalmente, na medida em que essa sensação boa se repete, ela pode começar a deixar de ser tão boa assim. Não passa a ser ruim. Apenas diminui o tesão. E, o mais esquisito de tudo, é que aceitamos e seguimos assim mesmo. Isso porque finalmente entramos na tão comentada, a expressão mais usada em palestras motivacionais, a temida – nem para todos – zona de conforto.

E essa tal zona de conforto é um tanto estranha. Afinal, como pode algo ter a palavra “conforto” no nome, e, ao mesmo tempo, ser tão desconfortável. Ok. Ok. Há quem adore ficar dentro de sua bolha. Mas a verdade é que precisamos, dentro do possível, buscar algumas escapadas desta zona. Precisamos, sim, de uma zona, mas no sentido de desconstrução, de bagunça, de enfrentamentos. Depois se coloca ordem novamente. Ou não. 

O importante é arriscar e abandonar o estado de inércia, tão fácil de entrar, e tão difícil de fugir. Uma maneira de se começar a praticar é não temer o ridículo. Nosso Luis Fernando Veríssimo já disse (espero que tenha sido ele, pois hoje atribuem diversas frases às pessoas famosas sem nem ao menos saber se foram delas mesmas. E sim, eu busquei na internet, por isso não sei da autoria oficial. E o que importa, não é mesmo?) que desconfia que a única pessoa realmente livre, é a que não tem medo do ridículo. Bem, eu também desconfio disso. E aprendi isso também com um professor. Ele fazia piadas diante da turma, sem graça alguma. Na verdade, horríveis. Perda de tempo, sabe? Mas não dava a mínima para qual seria a reação dos alunos. Ele apenas quis fazer a piada. Pronto. E ele é uma pessoa que se expressa perfeitamente em todos os ambientes e diante de qualquer pessoa. Diariamente ele sai da zona de conforto. Se é que ele tem uma.

Então, se você está pensando em começar uma aula de canto, entrar em um curso de filosofia daquele que sua família dirá “para que serve isso? ”, ou simplesmente convidar uma pessoa para sair arriscando ouvir um “não”, faça isso hoje, e evite que tudo pareça se encaixar perfeitamente, com o tempo correndo a nosso favor. A sensação será tão boa quanto.

quinta-feira, 17 de março de 2016

A COR DA HONESTIDADE

Muitas pessoas sofrem com a timidez. Digo sofrem, porque me refiro aos casos extremos, onde o indivíduo trava quando precisa, por exemplo, falar em público – mesmo que seja na frente dos amigos em um jantar do seu próprio aniversário -, e não consegue expressar nada do que tinha em mente, mesmo que tenha havido uma preparação para isso. Mesmo que esteja diante de conhecidos. Mesmo que ele já tenha dito para si mesmo diante do espelho: “vou tirar de letra e vou conseguir expressar tudo o que eu tenho para dizer, afinal já me preparei para isso. Conheço toda essa gente. Eu sou “O Cara”.

Mas, logo que o momento de encarar os demais chega, “O Cara” começa a suar frio. Suor que escorre até pelas palmas das mãos. Mãos que ficam com os dedos inquietos diante dos olhares fuziladores de almas. Taquicardia. Gagueira. E quando ele acha que já foi consumido pelo seu pior medo, alguém (normalmente quem tem a personalidade oposta, e nunca sente vergonha de nada) faz uma piadinha para que se comece a falar antes que a comida esfrie. Então o calor aumenta e suas faces ficam ruborizadas. Com a visão periférica ele percebe que alguns já notaram seu rosto avermelhado e ainda comentam sobre isso.

No entanto, quando o indivíduo ficou ruborizado lá no jantar diante de todos, deveria se orgulhar, mas não se sua vergonha, e sim de sua honestidade. Ao menos é o que dizem cientistas. Conforme a primatologista Frans de Waal, a vermelhidão no rosto é um meio de promover a confiança e a honestidade. Ou seja, os tímidos não precisam mais se preocuparem em estar com a vergonha na cara, mas se motivarem por estarem com a verdade na cara. Pensar sobre isso, por um lado pode ser consolador, mas, por outro, assustador, já que onde mais deveriam aparecer rostinhos rosados, o que vemos é inexpressividade, mesmo quando diante de câmeras argumentando sobre propostas políticas que nunca saem do papel. 
Então, além de encarar os olhos das pessoas, encare também suas bochechas.