quinta-feira, 28 de abril de 2016

ENTRAMOS NO CLIMA

O clima e a conversa estão intimamente ligados. Ele pode ser o gatilho para um longo diálogo ou apenas uma oportunidade para quebrar o silêncio de um elevador. Mas as características do tempo, principalmente aqui do Sul, que são mais incertas que um casamento, sempre auxiliam na troca de palavras triviais até mesmo entre completos desconhecidos. E isso é bom. Mostra como o ser humano, mesmo imerso em individualismos e com pouco tempo para tudo, ainda possui certa sensibilidade. Ainda somos humanos – apesar que desconfio de alguns hoje em dia.

E esta semana o clima nos surpreendeu trazendo temperaturas que eu não lembrava mais que existiam. Frio de renguear cusco. E muito marmanjo também. Pelo menos ele ajudou a trazer para os rostos das pessoas um ar mais receptivo. Resta saber até quando. Acho que estavam cansados daquele calorão. Acho nada. Tenho certeza que cansaram e estavam fechadas no seu âmago apenas suportando um clima que já deveria ter nos deixado. Mas, com essa mudança, venho recebendo mais “bom-dias”. E não só recebi. Até mesmo iniciei uma conversa enquanto tomava um café quente durante uma tarde em uma certa padaria. Afinal, com esse frio e no meio da tarde de um dia de semana, o que melhor do que uma padaria cheirando a pão recém tirado do forno e café passado na hora?

Então, enquanto esquentava as mãos na minha xícara de cappuccino no balcão, instintivamente falei aquele “caiu mesmo a temperatura, né?” para a atendente que espontânea e educadamente sorriu enquanto me entregava um pão de queijo e concordou, dizendo que adorava o frio. Ela comparava o frio com uma Bossa Nova, me disse. E o calor com um Carnaval. E ela amava Bossa Nova, falou. Concordei, mas ela teve que ir atender outro cliente, que também estaria afim de conversar sobre o clima, tenho certeza. Espiei com o canto do olho, torcendo para que ele não puxasse conversa com a minha nova amiga de sorriso largo, olhos levemente apertados e ainda por cima apreciadora de Bossa Nova. Mas não poderia fazer nada. Não se pode lutar contra o clima.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

VIDA COMPARTILHADA

- Estou falando com você, Carmem.

Ela estava com a boca semiaberta olhando para o celular.

- Carmem!

- O que foi, Tadeu.

- O que foi? O que foi? Estou aqui falando enquanto você não tira os olhos desse celular.
Carmem o encara. O celular ainda na mão.

- Diga, homem. 

- Como assim “diga”? Não ouviu nada do que eu falei? 

O garçom trouxe o vinho que haviam pedido. Carmen levanta os olhos.

- Vinho?

- Mas você concordou em pedir vinho. A questão é que você não presta mais atenção em nada do que te falam. Você não consegue mais largar esse telefone. Já li sobre isso. Você está viciada, isso sim. Segunda-feira vou procurar um especialista.

- Tá bom. Confesso que às vezes exagero.

Ele olha para o celular na mão dela. Então Carmem entende o recado e o coloca na bolsa.
Tadeu enche as duas taças e propõe fazer um brinde. Ambos sorriem. Quando vão tocar as taças, Carmem interrompe e tira o celular da bolsa.

- Não, não, não.... – protesta Tadeu.

Carmem se defende.

- Só uma foto do brinde.

A VIDA EM SELFIES

Conheço uma amiga que tem mais de 5 mil selfies. Ela descreve com orgulho cada foto tirada. De cada uma delas ela lembra a história, o dia, horário. É quase um projeto artístico desenvolvido. Tem até de velório de um escritor famoso. Eu sempre finjo uma cara de espantado quando ela começa e me mostra toda orgulhosa suas “obras de arte”, mas confesso que quando vi seu rosto com um caixão de uma pessoa que não era do seu ciclo de amizade ao fundo, realmente fiquei muito espantado. Mas os olhos dela brilhavam. Então elogiei o trabalho como um técnico atento aos detalhes de luz e ângulos. Ela parecia uma criança boba.

Eu mesmo, seguidamente apareço em uma dessas fotos junto com minha amiga. Até gosto, pois como ela compartilha todas em sua rede social vai que, em alguma dessas, alguma amiga sua queira saber quem era o modelo ao lado dela. Mas ainda não aconteceu. Nem por isso me nego a tirar uma foto com ela. Digo isso, porque já percebi que a relação dela com a selfie é quase obsessiva. Aliás, é obsessiva. Afinal, quem em sã consciência tira um autorretrato diante de um caixão com pessoas chorando em volta? Minha amiga tira. Bem, mas uma dica é nunca contrariarem um selfiemaníaco. E também não vale não sorrir. Aceitem o convite. Sorriem. Depois de algumas já se consegue aprender até a fazer biquinho.

Em uma dessas tiradas de selfies com minha amiga, comentei que qualquer dia ela iria bater o recorde de pessoas com maior número desse tipo de fotografia. A incentivei dizendo que, hoje, na era da internet, qualquer um pode virar um pouco celebridade, no sentido de ter seus quinze minutos de fama. Ela ficou em silêncio. Pensativa. Talvez vislumbrando sua futura profissão. Então voltou a si. Arrumou os cabelos, ensaiou alguns biquinhos. Me puxou para perto de seu rosto. Pensei que ganharia um beijo de recompensa por ter dado a ideia, mas foi apenas mais um clique meu que iria para sua galeria.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

UNIÃO AMIGÁVEL

Há quem não suporte estar sem fazer nada. Aliás, sem fazer não. Não suporte fica fazendo nada. Muitos acreditam que esse sentimento de vazio é perda de tempo, improdutivo, e que apenas nos tira a atenção dos nossos compromissos e nos fará pessoas ignorantes, entregando nossa mente para pensamentos nebulosos. Cabeça vazia, casa do diabo.

Porém, todo esse sentimento de ansiedade que não permite muitos terem alguns breves instantes consigo mesmo pode ser tão prejudicial quanto esvaziar um pouco a mente e aproveitar o nada do momento. Inclusive, existe um movimento chamado Nadismo, que busca oferecer mais qualidade de vida fazendo com que ela desacelere em alguns momentos do dia. E, ao contrário do que muitos imaginam, ficar fazendo nada não se trata de perder tempo. E sim de melhor equilibra-lo à rotina.

Diversos indivíduos se sentem culpados se precisarem desconectar por alguns minutos. Sentimento de culpa que é apenas um sintoma de ansiedade que toma conta de um número cada vez maior de pessoas no mundo. Isso gera tensão. Gera preocupação constante. Sofrimento que não se sabe nem o motivo. Busca desesperada por atenção que acaba gerando uma frustração, que acaba levando a tristeza, que acaba levando ao desespero e a uma concorrência com o próprio ego.

O que pode parecer uma mente produtiva, sempre ativa e disposta, em alguns casos, trata-se apenas de uma mente mais atrapalhada do que aquela que se permite fazer o nada. Podemos imaginar o fazer nada como uma faxina em um computador lento, que trava constantemente e, não raro, é preciso ser levado para a manutenção para poder seguir seu trabalho horas a fio. Em determinado momento ele dá pau de vez.

Para não ser levado para o conserto - ao menos não antes da hora -, nada como aprender a relaxar. Nada como diminuir o ritmo. Nada como dar uma pausa. Nada como... o nada.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O NADA DO MOMENTO

Há quem não suporte estar sem fazer nada. Aliás, sem fazer não. Não suporte fica fazendo nada. Muitos acreditam que esse sentimento de vazio é perda de tempo, improdutivo, e que apenas nos tira a atenção dos nossos compromissos e nos fará pessoas ignorantes, entregando nossa mente para pensamentos nebulosos. Cabeça vazia, casa do diabo.

Porém, todo esse sentimento de ansiedade que não permite muitos terem alguns breves instantes consigo mesmo pode ser tão prejudicial quanto esvaziar um pouco a mente e aproveitar o nada do momento. Inclusive, existe um movimento chamado Nadismo, que busca oferecer mais qualidade de vida fazendo com que ela desacelere em alguns momentos do dia. E, ao contrário do que muitos imaginam, ficar fazendo nada não se trata de perder tempo. E sim de melhor equilibra-lo à rotina.

Diversos indivíduos se sentem culpados se precisarem desconectar por alguns minutos. Sentimento de culpa que é apenas um sintoma de ansiedade que toma conta de um número cada vez maior de pessoas no mundo. Isso gera tensão. Gera preocupação constante. Sofrimento que não se sabe nem o motivo. Busca desesperada por atenção que acaba gerando uma frustração, que acaba levando a tristeza, que acaba levando ao desespero e a uma concorrência com o próprio ego.

O que pode parecer uma mente produtiva, sempre ativa e disposta, em alguns casos, trata-se apenas de uma mente mais atrapalhada do que aquela que se permite fazer o nada. Podemos imaginar o fazer nada como uma faxina em um computador lento, que trava constantemente e, não raro, é preciso ser levado para a manutenção para poder seguir seu trabalho horas a fio. Em determinado momento ele dá pau de vez.


Para não ser levado para o conserto - ao menos não antes da hora -, nada como aprender a relaxar. Nada como diminuir o ritmo. Nada como dar uma pausa. Nada como... o nada.