quinta-feira, 20 de outubro de 2016

GUARDE DEPOIS DE USAR

Quanto mais velho melhor. Aliás, velho não. Antigo. Ou ainda, vintage. Retrô também. Enfim, quanto mais idade tiver o objeto, mais descolado e valorizado ele será. Este movimento em torno de artefatos que foram tendência em outras épocas está cada vez mais forte. O que eu acho uma maneira muito interessante de se valorizar costumes e culturas de um período em que nós não tivemos oportunidade de vivenciar.

Sou um apreciador voraz dessa onda que resgata as antiguidades e traz para nosso contexto contemporâneo, abarrotado de virtualismo, oportunidades de conhecermos o que nossos pais e avós tinham em termos de diversão, moda ou mobilidade. Não que eu seja um saudosista. Apenas acho interessante essa volta no tempo. Poder compreender o quanto, hoje, temos facilidade extrema em conectar pessoas, em se deslocar, em se divertir. Em paquerar. Fico imaginando a cara da minha falecida avó se eu explicasse para ela o que é o Tinder. Provavelmente eu seria obrigado a visitar alguma benzedeira, por estar envolvido com coisas do capeta.

O interessante é que muitas dessas ofertas de produtos retrôs são mais caras do que eram em sua época. Até entendo quando se compra um produto original, fabricado há décadas atrás. Mas, para mim, perde o encanto quando as empresas, antenadas às tendências de consumo, criam novos produtos apenas com a aparência de antigo. Aí não vale. Mesmo assim, comprei um toca-discos novo, e com aparência de velho. Até entrada para USB tem. Até hoje me pergunto o motivo de uma entrada USB, se eu paguei caro por um aparelho justamente para tocar discos de vinis. De qualquer forma, mesmo o equipamento sendo novo, o ritual de colocar o disco sob a agulha consegue resgatar um pouco uma aconchegante nostalgia.

Pensando nisso, resolvi que não descartarei mais nada das minhas coisas, digamos modernas. Tenho guardado um videocassete, um DVD Player, um monitor de computador CRT (aqueles com um tubo atrás) e um Discman. Em alguns anos espero conseguir alguma grana com eles. Talvez com o videocassete. Se bem que, até chegar esse dia nosso próprio dinheiro será peça rara.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

O que mais ouço as pessoas dizerem é que não há mais tempo para nada. Dizem que o dia deveria ter umas 33 horas. Dizem isso porque não conseguem concluir o curso de línguas, mais as duas faculdades, mais fazer horas extras toda semana. Reclamam que não sobra tempo nem para ir ao parque. Se bem que, assim evitam um eventual assassinato em plena luz do dia. De qualquer forma, existe uma espécie de, digamos autopressionamento que está transformando as pessoas.

É caótico e assustador. Muitos se cobram o tempo todo e nem sabem ao certo se é aquilo mesmo que querem. Mas se cobram. Conheço um amigo que possui um emprego que detesta. Anda sempre estressado. Dia desses até recusou o convite para um chopp. A coisa estava séria. Mas não pensava em trocar de emprego. Afinal, apesar de ele não gostar, era um cargo que expressava certo status. A verdade é que muitos dos conhecidos realmente se comoviam com isso. Só que este amigo sofria quieto.

E assim existem muitos que se desgastam querendo se posicionar diante dos outros. Ok. É legal ser comprometido. Demonstrar empenho. Mas também é legal olhar para si e se perguntar até que ponto tal desespero irá trazer felicidade real. Claro que não significa que tenhamos que simplesmente pendurar a rede embaixo de um pé de bergamota e ficar de pés descansos ouvindo os pássaros o resto da vida. Apenas é preciso saber dar um passo de cada vez. Respeitar o seu ritmo. Respeitar os desejos. E, principalmente, respeitar os valores. Ou seja, o que realmente nós entendemos como algo importante para o nosso desenvolvimento pessoal e intelectual. Quando conseguimos equilibrar de maneira sensata nossas vontades, é possível perceber que o tempo não está curto não. Só não há necessidade de querer tudo ao mesmo tempo e agora. 

Planejamento. Essa palavra parece coisa de gente pragmática demais. Eu também pensava isso. Mas com ela em mente é possível trilhar pelo caminho que queremos. Conquistar o que desejamos. E, também, agradar quem gostamos. Mesmo com o dia tendo apenas 24h.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

IRRACIONALIZANDO

Há quem diga que os animais convivem melhor entre si do que os seremos humanos. Que, mesmo agindo apenas por instinto, ainda conseguem expressar comportamentos de respeito e lealdade, como se fossem racionais. Características que dizem estar se tornando extintas no homem, que cada vez mais busca vantagens sobre os outros. Que cada vez mais inveja os outros. Dizem. Mas creio que tal linha de pensamento não seja mera especulação, mas sim, uma triste constatação de tempos individualistas onde vale olhar apenas para si próprio.

O fato é que tais comportamentos mesquinhos sempre existiram. A questão é que aos poucos eles vêm aumentando. O problema é isso deixar de ser apenas um desvio de personalidade de determinados grupos de pessoas e passar a se tornar um comportamento natural dos seres humanos. Mas não podemos ser catastróficos. O respeito e a confiança ainda existem em muitas pessoas. Talvez até na maioria, por isso temos que estar atentos e saber separar o joio do trigo.

Pensando nisso tudo, nessa comparação entre homens e animais, nessa falta de segurança e posicionamento de muita gente, na falta de criatividade e autoconhecimento, começo a acreditar que muitos até querem se tornar irracionais. Pense bem. Se você for um ser irracional, poderá agir como um homem das cavernas. Poderá dizer que não sabia que determinada ação era errada. Poderá, literalmente, se fazer de louco, como dizemos quando alguém se faz de desentendido. Até imaginei, agora, uma bando de Neandertais caminhando pela cidade. Só que nós não somos eles. Somos seremos inteligentes, e, quando agimos como se não tivéssemos inteligência, acabamos nos colocando em um nível menor do que nossos ancestrais. Pois estamos exercendo a nossa capacidade intelectual para parecer que não temos tal capacidade. É como um gênio querer forçar para parecer um ignorante. Vai entender.

Diariamente são postados vídeos de animaizinhos nas redes sociais. Espécies distintas interagindo entre si. Realizando comportamentos de afetos. Mães cuidando de filhotes. São inúmeras peripécias animalescas. Já ouvi de alguns que isso tudo não passa de besteira. Que é perca de tempo de quem se dá ao trabalho de publicar e de quem assiste. Confesso que eu mesmo já pensei isso. Porém, depois de deixar o mau humor de lado, pude perceber que não se trata apenas de vídeos engraçadinhos. Mas sim, uma maneira subliminar de nos ensinar a reaprender a viver em comunidade.