quinta-feira, 30 de junho de 2016

CONSUMO NOSSO DE CADA DIA

Somos o que consumimos. Se isso for verdade podemos dizer, também, que somos seres indefinidos, devido à infinidade de coisas que compramos. Muitas dessas coisas que ficam atiradas naquele quartinho de tralhas, que simboliza a cultura da acumulação e do desperdício em que vivemos.

Compramos para satisfazer nossas necessidades e também para satisfazer os desejos. Porém, os desejos são tantos, que se misturam e nos confundem, fazendo com que esqueçamos o que realmente desejamos. Talvez não desejamos tanto. Mas somos impulsionados por campanhas publicitárias sedutoras que nos mostram como ficaremos poderosos dentro daquele carro de luxo com uma moça no banco do carona, que vemos no intervalo da novela das nove. Aliás, por que a mulher também aparece como uma espécie de objeto conquistado, em campanhas de diferentes produtos?

Consumir faz com que a economia se movimente, a sociedade se desenvolva, e, claro, as pessoas fiquem felizes. Bonito. Mas esse desenvolvimento e essa felicidade não podem ser alcançados sem medir consequências e ter em mente os limites dos recursos naturais. Por isso se faz necessária uma educação voltada para o consumo consciente, colaborativo, onde o desperdício seja reduzido e o convívio entre as pessoas seja fortalecido. E essa mesma propaganda que é vista como vilã, por estimular o consumo exacerbado, pode ser direcionada para este consumo focado no sustentável. Inclusive, já existem muitas empresas que direcionam suas estratégias para este conceito. Basta sair da zona de conforto e abrir mão do conservadorismo. 

Não significa que não iremos mais enfrentar fila para entrar em um shopping lotado, com um estacionamento caro e sem vagas, nas vésperas de uma data comemorativa, em um dia de sol de outono - no qual poderíamos estar sentados em uma praça tomando um chimarrão com os amigos -, apenas para comprar um presente, que corre o risco de não ser muito agradável ao gosto de quem irá receber. Digo isso por ser péssimo em comprar presente. Já tive experiências desagradáveis com isso. Enfim, voltando ao raciocínio, não custa nada um pouco de reflexão. Talvez possamos perceber melhor que nem tudo se resume ao material, mas também ao emocional.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

MANUAIS DE MAIS E CONSCIÊNCIA DE MENOS

O convívio social pode não ser uma das coisas mais simples que existem. Tudo bem que também não é nada de outro mundo. Mas, ser educado. Ter respeito. Saber ouvir e falar nos momentos certos são pequenos detalhes básicos que irão ajudar muito na tarefa de lidarmos uns com os outros, ainda mais em tempos de extremismos e disseminação de ódio que se espalham como virose.

Isso me veio à mente quando vi, na vitrine de uma livraria, a capa de um livro sobre boas maneiras. Não lembro o nome, até porque não me interessei, por acreditar que boas maneiras não devem ser apresentadas como um manual de instruções humano. Boas maneiras têm a ver com nosso bom senso, com nossa dignidade de sabermos que cada um tem seu espaço. Independente se você está ou não utilizando os talheres do lado correto do prato, ou se corta o espaguete ou se o enrola. Eu, pessoalmente corto. E como junto com arroz, para desespero de engessados frios e calculistas de poucos sorrisos.

Por isso não me interesso por um livro de boas maneiras. Para também não me transformar em um desses paranoicos que prestam atenção em cada movimento com medo de estarem cometendo alguma gafe e serem taxados de mal-educados. Acho que nosso tempo anda cada vez mais curto, e ainda vamos nos martirizar por tão pouco? Não vamos, não. Não concorda?

Do que adianta tantas normas serem criadas focando em interações sociais bem-sucedidas, se leis constitucionais não são obedecidas. Se bilhões são desviados e já não mais causam espanto. Se a energia elétrica é usada de maneira clandestina em muitas residências, tal como a luz e água. Se policiais despreparados matam inocentes nas ruas. Se as mulheres ainda são alvos de violência física e moral devido ao machismo que impera até mesmo em entidades que deveriam protege-las. Se a homofobia ainda é latente em nossa sociedade. Portanto, se há uma regra que deve ser seguida é a da consciência. 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O SHOW DA VIDA

O termo Big Brother, antes de ser o nome do Reality Show recheado de bizarrices que conhecemos, foi o personagem do romance 1984, do escritor George Orwell. O Grande Irmão, no livro, representava um estado totalitário, na qual toda a população era constantemente vigiada e, sem direitos, continuamente manipulada ao bel prazer de seus governantes.

O livro foi escrito em 1949, mas expressa um conceito muito próximo ao contexto que vivemos hoje em dia, imersos em redes sociais, no qual nós sabemos de todos e todos sabem de nós. Basta ligar o celular que já descobrimos onde determinado amigo almoçou, com quem e qual foi o prato. E também se este almoço estava saboroso ou não. O lado bom é que isso  acontece por livre e espontânea vontade, ninguém obriga as pessoas a estarem expostas. No entanto, quanto mais alguém se priva desta exposição, mais as críticas têm aumentado. Como se a pobre criatura estivesse cometendo algum tipo de erro por escolher não sair publicando sua vida em redes sociais. Alguns começam a pensar que esta pessoa não é feliz. Afinal, onde estão as fotos das viagens, das confraternizações, dos amigos secretos? Às vezes tenho a impressão que a felicidade de alguns não passa de um mosaico de imagens.

Obviamente, assim como não se pode criticar quem escolhe manter sua vida na discrição, também não é correto atirar pedras em quem adora ocupar centenas de gigabytes com imagens pessoais. Mas é preciso que o bom senso seja mais vezes utilizado. E o que vemos parece bem ao contrário. É como se a vida fosse um espetáculo. Se bem que a forma que andam as coisas, pode sim ser chamada de espetáculo.

Mas com essa imersão em uma vida cada vez mais transparente, é preciso aprender as sutilizas de um convívio mais civilizado e harmônico, primeiramente respeitando o espaço do outro. Depois, respeitando o seu próprio espaço, no sentido de se prevenir contra uma exposição extrema da vida pessoal, que pode até estar virando um espetáculo, mas não precisa ser gratuito.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

MARIA VAI COM AS OUTRAS

Gosto de pessoas que têm personalidade. Que possuem opinião própria e são decididas quanto às suas escolhas, independente se vão ou não agradar os outros. Você provavelmente deve conhecer alguém assim. Não que seja fácil, já que hoje é muito comum encontrarmos pessoas que trocam de opinião assim como trocam de canal durante um domingo de programação tediosa na televisão. Alguém assim você também deve conhecer. Esses existem de sobra.
Às vezes me pergunto se é realmente falta de personalidade de certas pessoas, ou apenas um medo de serem elas mesmas, preferindo sempre agradar mais os outros que a si próprias. Existem aqueles que na frente de uns argumentam ter um tipo de opinião, e na frente de outros defendem exatamente o contrário. Vá entender. 

Dia desses encontrei uma pessoa lendo o livro O Código da Vinci dentro do trem. Um amigo que estava comigo olhou e fez um comentário para mim dizendo que o tal leitor tinha mau gosto por ler aquele livro. Era previsível. Popular. Respondi dizendo que eu havia lido o livro, pois apesar de realmente ser uma escrita de fácil compreensão, com narrativa previsível, era uma boa opção de lazer, e, principalmente, que toda a leitura é um ótimo exercício, especialmente se ela for agradável para quem estiver lendo. Ou seja, se faz bem para a pessoa, é isso o que importa. Seja feliz e não deixe de fazer algo que goste só por causa da opinião alheia.

Creio que as pessoas andam ansiosas demais. Esse é o problema. Mas se conseguissem relaxar um pouco, não prestariam tanta atenção nos outros e olhariam mais para o seu interior, buscando a senhora personalidade em algum canto da alma. O pior é que há aqueles que já a perderam de vez. E levam suas vidas como “Maria vai com as outras”, como meus avós chamavam quem vivia sempre no rastro de alguém. Só que já são tantos rastros se cruzando, que logo vai acontecer uma pane e precisaremos aprender a nos conhecer novamente. Aí poderemos ler, vestir, ouvir, e comer sem nos preocuparmos se estamos fazendo como “os outros”. Apenas nos preocupar se estamos fazendo com gosto.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

NOSTALGIA CINÉFILA

Me lembro do tempo em que eu ia na vídeolocadora nas sextas-feiras. Alugava dois filmes e podia entregar só lá na segunda. Que maravilha.  Seriam dois filmes para o meu final de semana. Dois. Lançamentos que acabaram de sair das telas do cinema me acompanhariam com um balde de pipoca. Jurassic Park tinha uma caixa promocional toda preta com esqueletos de dinossauros estampados em alto relevo.

Ainda existem muitas na minha cidade. O que não existem são as fitas VHS, mas DVDs e BlueRays existem nelas. Eu sempre fui adorador de vídeolocadoras. Minha vontade era ter uma. O Tarantino trabalhou em uma e hoje é um dos mais cultuados diretores de cinema da atualidade. Bem, eu não almejava ser um diretor. Talvez um roteirista. Mas o que quero dizer é que, eu sempre adorei estar dentro desses espaços passando horas olhando todas as prateleiras de fitas, inclusive aquelas que ficavam em um espaço mais reservado. No entanto, dias desses, enquanto comia uma bergamota sentado ao sol, me dei por conta que nem o cinema eu tenho frequentado ultimamente. Uma lástima. E não são preços. Porque em Porto Alegre encontramos ótimos filmes em lugares como o Santander Cultural e Casa de Cultura Mário Quintana a preços praticamente simbólicos. Mas eu não tenho ido. Essa é a verdade.

O que tenho feito ultimamente, assim como a grande maioria de nós, contemporâneos imediatistas que somos, é ficar passeado pelos menus do NetFlix à escolha de um bom filme. E existem vários. Muitos filmes que eu não consegui assistir nos cinemas e não encontrava nas vídeolocadoras estão ali. Mesmo assim, às vezes sinto como se faltasse algo. Alguns podem dizer que é apenas um sentimento de nostalgia, que preciso deixar aquele velho pensamento de que sempre o que se fazia no passado era melhor. E nem sempre é. Mas falta algo. E esse algo são os rituais das coisas que não eram tão automatizadas quanto hoje, diferente de quando íamos até às locadoras de filmes, escolhíamos a prateleira de acordo com a categoria, conversávamos com o atendente sobre as novidades, assinávamos a ficha, algumas vezes participando de alguma promoção e corríamos para casa curtir nosso Panasonic sete cabeças. Tudo bem, talvez seja mesmo um sentimento nostálgico. Mas a nostalgia é agradável. Menos a parte de rebobinar a fita.