quinta-feira, 26 de maio de 2016

VIDA MATERIAL

O bom mesmo é ser uma pessoa respeitada. Que todos admiram e sonham ser igual um dia. Na verdade invejam ser igual, mas o verbo “sonhar” soa menos agressivo. Eu conheço gente assim, que babam por ter a grama tão verde quanto a do vizinho. O problema é que a grande maioria dessas pessoas almeja apenas isso. A grama. Ou seja, querem o superficial, querem a casca que irá ser apresentada ao grande grupo.

Um exemplo é um dos maiores amores dos brasileiros. O carro. Admito que não conheço a cultura de outros países. O máximo que a verba me permitiu foi experimentar as empanadas da Argentina. Bem, mas o certo é que o culto ao carro aqui no Brasil beira ao exagero. Não importa por quanto tempo se ficará endividado, desde que você possa chegar a uma festa de aniversário, ou na missa de domingo com o seu possante cheirando a novo para que os sorrisos comecem a se derreter massageando o seu ego. Agora você é o cara. Tudo bem que tenha esquecido de pagar a prestação da faculdade, a casa, e reduzido a sua cesta básica. Agora sua pessoa terá uma aceitação maior dentro da firma.

A verdade é que o problema, obviamente, não é o fato de alguém desejar comprar um carro do ano. Por sorte vivemos em um país livre. O ponto aqui, é a percepção que a sociedade tem em relação a posses de terceiros. O carro é só um exemplo. Já ouvi indivíduos elogiarem alguém com brilho nos olhos e me dei por conta que todos os argumentos direcionados ao elogiado eram devido a sua conta bancária, marcas de roupa e, claro, a “nave” que ele dirigia. Em nenhum momento ouvi algo relacionado ao seu comportamento e atitudes como ser humano.

Por sorte, mesmo esse posicionamento materialista sendo bastante forte dentro da sociedade, é possível perceber que, hoje em dia, há um aumento expressivo de troca de valores, como o consumo colaborativo e a economia criativa. Mas isso já é tema para outro debate. Por enquanto vou voltar ali para o congestionamento.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

FIM DE ABSTINÊNCIA

No primeiro dia é fácil. As pessoas até afirmam que não precisam, que não faz falta. Afinal, elas param quando querem. Mas, logo no segundo dia, a crise de abstinência começa a se manifestar pelo organismo, trazendo ansiedade, menos sorrisos e até alucinações, comprovadas quando o indivíduo pensou que ouviu o toque, e ao pegar o celular para checar a mensagem, não havia nada. Pois ele nem se quer tocou. Isso porque o aplicativo preferido estava fora do ar.

E olha que o querido WhatsApp nem chegou a cumprir a pena máxima imposta de 72 horas. Creio que as autoridades perceberam a tensão coletiva que se formou e, assustados, resolveram liberar sua utilização para o deleite daqueles que já suavam frio pelas ruas, perdidos ao meio de outros seres humanos, percebendo-se incapazes de mandar uma selfie para o grupo de amigos, mesmo que este mesmo grupo tenha se encontrado dois dias antes em uma praça. Ao vivo. Mas talvez pareça mais tempo, pois neste encontro, cada um estava mandando suas mensagens para um outro grupo, que ninguém do primeiro participava. Confuso. A vida é confusa.

Mas o barato retornou às ruas. Os semblantes relaxaram como se todos estivessem curtindo a mesma música. Sentados em cangas enquanto comem uma bergamota no sol. Até os trabalhos ficaram mais produtivos, contrariando o que dizem os gestores da velha escola, de que tais ferramentas tecnológicas podem tirar o foco das tarefas. Não, amigos. O foco está de volta. Apenas voltou a ser dividido com o Whats e suas mensagens com piadas, com as frases de motivação, com os nudes, com as brigas dos grupos, com as paqueras, com as fofocas, com os desabafos, com as gafes cometidas por causa do corretor automático de palavras ou uma mensagem enviada errada, com a ansiedade de ver que o receptor leu a mensagem, mas ainda não respondeu. Até mesmo com mensagens de trabalho, inclusive fora do horário de expediente. Ou seja, agora o foco é constante, estando ou não no trabalho. E não seria melhor aprendermos a perder um pouco o foco?