É preciso plateia. O show nunca para. Não há mais intervalos e muito menos tempo para descanso. O próprio conceito de tempo parece estar se desconstruindo, como na clássica pintura do Salvador Dali. E todos buscam acelerar ainda mais esse tempo e preenche-lo. Na maioria das vezes, mais do que o tempo, parece que o que sempre precisamos preencher é a nossa autoestima de maneira insaciável, como se precisássemos, constantemente, estar provando algo para alguém. Quando na verdade não precisamos, a não ser para nós mesmos.
Quando o filósofo René Descartes disse “Penso, logo existo”, nem sonharia que um dia o mundo seria com é hoje. Não digo que não gostaria, talvez até curtisse. Mas provavelmente postaria em seu Facebook algo como “Curto, logo existo”. E estaria resumindo a necessidade de obtermos infinitas apertadas naquele botão da rede social que todos adoram ver aumentando a quantidade. Há até quem mande uma mensagem para os amigos curtirem determinada publicação. E aqui já deixo um aviso. Quando um conhecido pedir para você curtir uma foto do churrasco de domingo, faça isso. Você estará contribuído com a diminuição de casos dessa espécie de depressão tecnológica. Você fará uma pessoa feliz com um clique, literalmente.
Todos sofrem um pouco de ansiedade por verem que seus contatos virtuais não estão curtindo suas peripécias e fotos marotas. Mas por favor, não precisam pedir para eu curtir algo. Com se não bastasse a preocupação de pagar contas, ligar para o 0800 da operadora de telefone devido as cobranças indevidas, marcar o dentista, concluir trabalhos em casa por falta de tempo de fazer no horário de expediente, ainda tenho que anotar na minha agenda que preciso apertar o botão “curtir” da foto de uma taça de vinho no Face do fulano? Enquanto eu estou tomando um refrigerante, geralmente sem gás porque já estava aberto há dois dias.
Assim como o conceito de tempo parece estar se transformando, o conceito da palavra curtir também parece. Da expressão que remete a uma apreciação muito forte por algo, passa a ser vinculada a uma questão mais quantitativa do que qualitativa, onde os números valem mais do que tal apreciação. Mas fiquem à vontade em curtirem esta coluna quando eu a postar no meu perfil.
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